Em entrevista ao iGay, criador do Pink Bloc pede um movimento gay mais político e questiona fama de cidade gay friendly do Rio de Janeiro

Em 2008, o radialista Rafael Puetter, mais conhecido pelo apelido Rafucko , chamou atenção na internet com o vídeo “Versões – Preconceito” . Com depoimentos ficcionais, a gravação discutia de forma irônica o racismo, a homofobia e as questões de classe. Hoje, seis anos depois e com mais de dois milhões de visualizações em seu canal no Youtube, o carioca de 28 anos se tornou um dos nomes mais proeminentes da nova geração da militância LGBT no País.

“Milito porque sou gay. Em parte da minha vida, eu deixei isso de lado porque tinha medo de me aceitar e de não ser aceito. Como esse momento foi mal resolvido para mim na época, imagino que tenha sido difícil para muitos outros”, conta Rafucko, que já produziu mais de 115 vídeos. O radialista se inspira nas gerações anteriores para realizar a sua atividade de militância. “Vejo o que foi feito lá atrás, todo mundo que militou antes de mim, que morreu nos anos 60 por conta dos mesmos discursos opressores. A luta é constante e precisa estar sempre viva .”

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Milito porque sou gay. Em parte da minha vida, eu deixei isso de lado porque tinha medo de me aceitar e de não ser aceito

O humor é uma marca forte na militância de Rafucko. Essa característica o ajudou a se destacar ainda mais durante a polêmica em torno dos vídeos e cartilhas educacionais produzidos pelo Ministério da Educação para abordar nas escolas temas como violência, bullying, diversidade sexual e preconceito. Depois de forte pressão de grupos religiosos fundamentalistas, que apelidaram o projeto jocosamente como ‘kit gay’, o Governo Federal barrou a distribuição do material.

“Com o kit gay, muitas questões ganharam força, a política entrou com o tudo na vida dos brasileiros e a militância LGBT passou a se destacar”, aponta Rafucko, lembrando que milhares de pessoas foram às ruas para protestar contra a presença do deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP) na presidência da Comissão dos Direitos Humanos e Minorias do Congresso Nacional, em 2013. “As manifestações ‘Fora Feliciano’ foram de extrema importância.”

Por outro lado, Rafucko critica a pauta reducionista do ativismo gay. “Os LGBTs ficam muito presos aos não direitos, sinto falta de luta pelo racismo, pelo combate da transfobia”, lamenta o radialista, que trabalha para ‘contaminar’ o movimento com temas políticos mais amplos.

Os LGBTs ficam muito presos aos não direitos, sinto falta de luta pelo racismo, pelo combate da transfobia

“Nós fizemos protestos usando o que chamamos de Pink Bloc, exatamente para juntar a politica com a pauta LGBT, também levamos politica para a Parada Gay”, assinala Rafucko, que atuou fortemente nos protestos que tomaram conta das ruas brasileira em junho do ano passado, criando um grupo de ativistas que se tornaram uma versão rosa do Black Bloc. “É tudo muito espontâneo. Não tem um grupo fixo, é um grito da liberdade.”

Rafucko, o radialista carioca que está renovando o movimento LGBT
Arquivo pessoal
Rafucko, o radialista carioca que está renovando o movimento LGBT

Apesar de sempre buscar um ativismo com humor, o radialista admite que nem sempre é fácil manter sua verve irônica. “São temas muito pesados para quem está ali o dia inteiro lutando com estatísticas de morte, agressão, homofobia, é difícil”, confessa ele. “Mas a militância LGBT talvez seja uma das mais bem humoradas, é um pouco estereotipado, mas temos figuras como a da drag queen, que são tanto cômicas quanto militantes”, pondera o radialista.

CIDADE MARAVILHOSA, MAS NÃO TÃO GAY FRIENDLY

Morador do Rio de Janeiro, Rafucko questiona a fama de cidade LGBT da capital fluminense. “Existem politicas tanto da prefeitura quando do governo Rio que merecem elogios, mas não adianta criar disque homofobia se a delegacia não está preparada. As políticas para os LGBTs são fachada. Esse rótulo de cidade gay friendly e acolhedora não reflete a realidade”, critica Rafucko.

Não adianta criar disque homofobia se a delegacia não está preparada. As políticas para os LGBTs são fachada. Esse rótulo de cidade gay friendly e acolhedora (do Rio) não reflete a realidade

“Não sou poucos os casos de pessoas agredidas, isso acontece até na Lapa. O tempo inteiro nós sabemos de casos, travestis são constantemente violentados. Sem contar que ao mesmo tempo que se tem políticas para homossexuais, governantes aparecem abraçando o pastor Silas Malafáia e se unem a fundamentalistas religiosos.”

Para Rafucko, esse quadro negativo só vai mudar na cidade e no País quando a população se der conta dos preconceitos que pratica. “Violência contra gays é a mesma que a gente pratica contra o mais pobre, contra o negro, contra as minorias. Para mudar o mundo, é preciso mudar a nós mesmos. É preciso ver que a luta não é só dos gays, é de todos”, finaliza.

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