Essas igrejas oferecem aos homossexuais a oportunidade de se casarem, praticarem a fé, sem ter de abrir mão da afetividade

A cabelereira Danyelle Campos, de 26 anos, tem um papel de destaque na igreja que frequenta em Brasília. Evangélica, criada na Assembleia de Deus, é conhecida e admirada por “cantar” em linguagem de sinais, e dançar os cânticos de louvor dos cultos semanais, que ocorrem no subsolo de um prédio no centro da capital federal. Ela faz parte da comunidade Athos, uma das chamadas igrejas inclusivas, de ritual presbiteriano, que chega a reunir, aos sábados, cerca de 100 pessoas.

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Dificilmente Danyelle se sentiria aceita em uma igreja tradicional, seja evangélica ou católica. Não pela surdez, mas por sua condição de transexual. Ela tem o sonho de encontrar um namorado e sabe que, caso isso aconteça e a relação engrene, terá condições de realizar sua cerimônia de casamento na igreja que frequenta. A jovem espera ainda fazer a cirurgia de mudança de sexo e já participa de um grupo de terapia votado para preparar as pessoas que querem passar pelo procedimento médico. “Quero mudar meu corpo e casar”, declara.

A cabelereira, que nasceu menino, se sente feminina desde criança. Antes de se integrar a comunidade Athos, chegou a frequentar cultos na igreja tradicional, até que outros frequentadores a perguntaram se era gay. Ao se assumir foi convidada a se retirar.

Como Danyelle, é cada vez maior o número de frequentadores das chamadas igrejas inclusivas. No Brasil, já são catalogadas cerca de dez denominações, a maior parte evangélicas.

Uma alternativa aos gays

Rejeitados pelas igrejas tradicionais, gays, lésbicas e transexuais se abrigam em braços não autorizados das denominações religiosas para poderem praticar a fé em que foram criados ou mesmo, encontrar apoio espiritual. Embora não haja um levantamento preciso sobre o número de pessoas que optam pelos cultos alternativos, entre os pastores dessas igrejas, a visão é de crescimento geométrico dos fiéis.

“Aqui temos cerca de 100 pessoas assíduas, e cerca de 400 pessoas que comparecem eventualmente”, informa a pastora Márcia Dias, lésbica, mãe de três filhos. Ela foi casada com homem e, como Danyelle, também foi impedida de viver como lésbica e como integrante da igreja que frequentava.

Para Márcia, os políticos que se dizem religiosos usam o povo evangélico como “massa de manobra”. “É só política, não tem fé. O problema é que esses políticos usam como massa de manobra um povo que tem uma fé que nos condena. critica”, acusa a pastora. Todas as semanas, Márcia usa suas pregações para incentivar pessoas que não “saíram do armário”. “Jesus já nos aceitou. Quem não aceita é a sociedade”, defende.

“No mundo evangélico entende-se que ser gay é um comportamento e, se é um comportamento, pode ser mudado. Há uma frase na Bíblia, em Romanos, capítulo 1º, que diz que quem aprova também está em pecado”, cita. “O problema é que não se entende o contexto. Os pastores usam isto como condenação”, explica.

Antes de se tornar igreja, a comunidade Athos em Brasília se resumia a cinco amigos que se reuniam toda semana para estudar a Bíblia. As reuniões ocorriam em uma sala cedida pela igreja católica. “Quando descobriram que discutíamos a questão da homossexualidade, acabaram tomando a sala”, conta um dos fundadores da igreja que funciona há oito anos.

Márcia realiza na comunidade Athos casamentos entre homossexuais, da mesma forma como ocorre nas igrejas tradicionais. Para a próxima cerimônia, os casais da igreja tomarão até aula de dança para não “fazerem feio” na festa. Para o Dia Internacional da Mulher, a igreja organizou uma programação especial com palestras de cunho feminista.

Igreja de portas abertas

Na capital federal, a primeira igreja a funcionar foi a Acalanto, fundada em São Paulo, em 2002. A Acalanto, que não funciona mais na capital, abriu as portas para o surgimento de várias outras igrejas, inclusive a comunidade Athos. Atualmente, essas igrejas representam um espaço importante de combate ao discurso conservador e à homofobia.

“Os políticos reproduzem um discurso baseado no tradicionalismo, mas não se dão conta que são vítimas de uma interpretação errada. Além disso, não se dão conta que estão fazendo outras vítimas. Esse pensamento conservador precisa ser combatido no Brasil para que não se cometa tanta violência contra homossexuais. As igrejas evangélicas precisam adotar um olhar mais de amor pelas pessoas”, ressalta o pastor Alexandre Feitosa, que comanda a Igreja Cristã Inclusiva Apascentar, que há um ano funciona em Taguatinga, cidade-satélite de Brasília.

“As igrejas inclusivas nascem neste cenário de exclusão no Brasil e estão crescendo de forma acelerada”, destaca o pastor, que se orgulha e há um mês ter inaugurado a sede da igreja “com as portas votadas para a rua”. “Nossa igreja não precisa estar mais nos subsolos dos prédios comerciais. Ainda estamos sem placa, mas com as portas abertas e voltadas para a rua. Isso tem proporcionado uma experiência interessante com a comunidade. As pessoas que estão passando, entram, gostam e voltam para orar”, diz

A Apascentar, que tem um ritual nos moldes pentecostais, completou um de funcionamento neste domingo (9) com uma festa que contou com a presença de pastores de igrejas inclusivas de Brasília e Goiânia. “Somos mais parecidos com a Assembleia de Deus”, identifica Feitosa.

O pastor ressalta que a grande diferença é que a igreja inclusiva não exige que a pessoa abra mão da afetividade para poder praticar a fé. “O que nós defendemos é o direto à fé e, ao mesmo tempo, o direito à afetividade. As igrejas tradicionais alegam que dão aos homossexuais esse direito à fé, desde que a pessoa se abstenha da afetividade. Nós pensamos de forma diferente. Nós queremos o direito da prática da fé e queremos a benção a nossa afetividade. As igrejas crescem bastante exatamente por desempenhar esse papel social. Tanto é que as igrejas inclusivas já fazem o casamento gay há bastante tempo”, observa.

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