Três pares homossexuais contam ao iGay como é viver em um relacionamento não monogâmico. Especialistas apontam o que faz um arranjo afetivo deste tipo dar ou não certo

Morando na mesma casa há mais de um ano e namorando há dois, o metroviário Danilo Ferreira , 21, e o professor de inglês Oswaldo Fernandes , 22, decidiram experimentar o casamento aberto durante uma conversa despretensiosa. “Quando começou a dar aula em uma escola de idiomas, o Oswaldo me falou de um colega que era bonito e atraente. Na hora, sem pensar, eu disse que não me importaria se ele saísse com outra pessoa. E ele me respondeu que pensava da mesma maneira”, conta Danilo.

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Há sete meses vivendo a experiência de um relacionamento aberto, eles desmentem o senso comum de que um casal só abre a relação quando há desgaste na vida a dois ou mesmo falta de interesse sexual.

“Eu acho que é uma escolha saudável para o casal. De poder ter liberdade e de não prender a pessoa a você. Nós estamos juntos porque nos amamos. Mesmo saindo com outras pessoas, quem compõe o casal somos nós dois”, defende Danilo.

Eu acho que é uma escolha saudável para o casal. De poder ter liberdade e de não prender a pessoa a você. Nós estamos juntos porque nos amamos. Mesmo saindo com outras pessoas, quem compõe o casal somos nós dois (Danilo Ferreira)

Apesar de o relacionamento começar monogâmico, a exclusividade afetiva nunca foi uma obrigação para o estudante de computação gráfica Marcos de Souza , 30, e para o técnico de administração e controle Marcelo Feliciano , 31, juntos há quatro anos.

“O namoro começou fechado, como na maioria dos casos. Mas nunca explicitamos que a relação tinha que obrigatoriamente ser assim”, explica Marcelo. “Depois de seis meses, começou a surgir uma vontade mútua de sair com outras pessoas. Então, decidimos então marcar um encontro a três”, completa ele.

Marcelo Feliciano e Marcos de Souza decidiram abrir o relacionamento depois de seis meses juntos
Arquivo pessoal
Marcelo Feliciano e Marcos de Souza decidiram abrir o relacionamento depois de seis meses juntos


SEXO A TRÊS PARA COMEÇAR

Nos dois casais já citados, a experiência de abrir o relacionamento começou com uma relação sexual a três. “Nas primeiras vezes, a gente buscou pessoas em aplicativos e saímos com casais de amigos que tinham relacionamento aberto”, revela Danilo, acrescentando que com o tempo ele e o parceiro se sentiram livres para saírem separados com outras pessoas. Mesmo assim, algumas regras foram estabelecidas para evitar conflitos.

A gente não deixa de fazer nada para marcar com outra pessoa. Encontros no final de semana são raríssimos e são a três quando acontecem (Marcos de Souza)

“Como sou ciumento, não quero detalhes sobre as pessoas com quem ele fica. Também passamos a avisar quando iríamos sair com alguém para não deixar o outro preocupado”, justifica Danilo. Dizer quando vai estar com outra pessoa é uma condição igualmente fundamental para Marcos e Marcel.

Marcos e o namorado estabeleceram ainda que as relações com outros parceiros não podem interferir nos compromissos em conjunto do casal. “A gente não deixa de fazer nada para marcar com outra pessoa. Encontros no final de semana são raríssimos e são a três quando acontecem”, descreve o estudante.

O relecionamento aberto começou como um teste para Thalitta  e Natássia
Arquivo pessoal
O relecionamento aberto começou como um teste para Thalitta e Natássia

A ausência de regras já fez Danilo se magoar. “Depois de passar um dia juntos, cheio de momentos bacanas, à noite fomos a um evento. Chegando lá, ele falou que ia ficar com outra pessoa, fiquei muito chateado”, admite o metroviário.

Com um namoro de quatro anos, a secretária Thalita Bittencourt de Oliveira , 22, e a bancária Natássia Salgueiro Rocha , 26, também evidenciam que a relação aberta delas segue algumas regras, ficando longe da ideia de ‘vale tudo’ que passa pela cabeça de muitas pessoas quando se fala de um relacionamento nesta configuração.

Esperamos evoluir ao ponto de ver a outra num segundo relacionamento sério e sermos felizes com isso. Quanto mais amor no mundo melhor (Thalita Bittencourt de Oliveira)

“Explicamos para as pessoas que temos uma relação livre, para ninguém achar que é oba-oba, que não há amor”, pontua Thalita, acreditando que esta configuração de namoro vai amadurecer ainda mais com o tempo. “Esperamos evoluir ao ponto de ver a outra num segundo relacionamento sério e sermos felizes com isso. Quanto mais amor no mundo melhor”.

Thalita diz que a ideia de abrir a relação surgiu quando ela teve que se mudar temporariamente do Rio de Janeiro para Salvador. Elas ficaram nove meses namorando à distância. “Foi um teste. Conversamos objetivamente e chegamos racionalmente à conclusão que o fato de existir atração ou de ficar com outra pessoa não modificaria em nada o que temos”, relata a secretária.

A relação aberta é uma questão mais de lealdade do que de fidelidade (Sandra Teixeira)

INSEGURANÇA E COMPETIÇÃO 

Independentemente da configuração do relacionamento ser ou não monogâmica, a psicanalista Sandra Teixeira entende que os casais precisam manter sempre o diálogo. “Uma relação é um acordo, um trato. Em todas elas se estabelecem critérios, desde a questão ‘estamos namorado ou ficando?’ a pergunta ‘queremos ficar juntos para sempre?’”, pondera.

“Dar flexibilidade a esse acordo é possível, principalmente depois da fase inicial da paixão, caracterizada por um maior sentimento de posse. A relação aberta é uma questão mais de lealdade do que de fidelidade”, prossegue a psicanalista.

Mesmo com o casal estabelecendo acordos, a relação pode enfrentar obstáculos, de acordo com o psicólogo Klecius Borges , especialista em terapia homoafetiva.

“O primeiro é a insegurança, seguido do ciúme e do medo”, inúmera o especialista, acrescentando ainda a competividade como um fator negativo. “Quando se fala de dois homens, existe a tendência de haver competição e comparação. Nesta situação, um dos parceiros começa a se perguntar se ele é pior ou melhor que a terceira pessoa”.

Quando se fala de dois homens, existe a tendência de haver competição e comparação. Nesta situação, um dos parceiros começa a se perguntar se ele é pior ou melhor que a terceira pessoa (Klecius Borges)

Entretanto, Klecius considera que o maior impeditivo é o fato de um dos parceiros não estar totalmente confortável com esse arranjo.

“Quem não quer realmente o casamento aberto fica desconfortável, não consegue lidar com a situação. Já o que não quer ser monogâmico se frustra por não viver um relacionamento aberto de verdade”, conclui o psicólogo, indicando que a tendência é um relacionamento assim não sobreviver.

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