Recém-assumido homossexual, atleta de futebol americano enfrentou separação complicada dos pais, morte de três irmãos e a prisão de outros dois

O jogador de futebol americano Michael Sam é o típico rapaz grandalhão do interior dos Estados Unidos – que não abre mão de usar camiseta regata e um chapéu de cowboy. Com voz de barítono suave, ele gosta de cantar até o ponto de irritar os colegas e o treinador do seu time, o Mizzou Tigers, da Universidade do Missouri.

Mas essa vida nada incomum de Michael mudou no último domingo (09), quando ele se assumiu gay num vídeo no site do The New York Times. Seu anúncio fez um senador do estado do Missouri propor uma legislação que proíba a discriminação baseada na orientação sexual. Sua coragem foi saudada por companheiros de time, atletas famosos, inúmeros fãs e até pelo presidente americano Barack Obama e pela primeira-dama Michelle .

Michael sai do armário no momento que está cotado para ser o próximo astro da NFL, a poderosa liga de futebol americano. O fato desse universo esportivo ser conhecido como machista e agressivo contribuiu para que a sua vida privada dele virasse assunto de debate público.

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No entanto, essa não foi nem de longe a primeira dificuldade na vida Michael, que já enfrentou muitas outras na cidade de onde saiu, a pequena Hitchcock, no estado do Texas. Ele cresceu sendo o sétimo entre os oito filhos de um casal. Três dos seus irmãos morreram, outros dois estão presos.

Em parte da sua infância, ele teve que morar no banco de trás do carro de sua mãe. Até o hoje o seu relacionamento com a família é complicado. Quando volta a sua cidade natal, Michael costuma ficar na casa de amigos.

Para se ter ideia dos desafios que o jogador terá pela frente, basta dar uma olhada na relação dele com o pai, também chamado Michael Sam . Na última terça-feira (11), ele não recebeu muito bem a uma mensagem do filho, via telefone celular. O texto em SMS era curto e objetivo, com a seguinte frase: “Pai, eu sou gay”.

No momento em que recebeu a mensagem, o pai estava comemorando o seu aniversário numa lanchonete popular nos arredores de Dallas, também no Texas. A festa acabou assim que o SMS chegou. “Eu não conseguia mais comer, então eu fui para outro lugar para beber... Eu não quero os meus netos crescendo neste tipo de ambiente”, dispara ele, sem muita cerimônia.

“Eu sou da velha escolha... sou um cara do tipo [que acredita no] homem e mulher”, prossegue o pai do atleta. Orgulhoso, ele acrescenta que fez questão de levar um dos seus outros filhos ao México só para o rapaz perder a virgindade.

No entanto, Michael Sam pai continuando amando o seu filho, revelando inclusive uma torcida para que o rapaz entre na NFL. “Como homem negro, você cruza com muitos obstáculos”, admite. “Esse é apenas um dos que ele tem que superar”, completa.

Ao sair do armário, o filho já dava pistas das dificuldades familiares por quais passou, admitindo que se assumir homossexual foi menos desafiador do que sua criação difícil. “Eu sou muito mais próximo dos meus amigos do que dos meus familiares”, admitiu o jogador.

INFÂNCIA COMPLICADA

A vida foi bem dura com a família de Michael. Os pais deles se separam depois de ter oito filhos. Enquanto a mãe Jo Ann Sam ficou com filhos tentando manter o resto da família unida, o pai foi trabalhar como caminhoneiro norte do Texas.

Pouco antes de Michael nascer, sua irmã morreu afogada aos 2 anos de idade, quando outra criança a derrubou acidentalmente fora de um cais de pesca. Russell , outro irmão, tinha 15 anos quando foi baleado e morto ao tentar invadir uma casa. Segundo o pai, o jovem teria feito isso como um ato de iniciação numa gangue.

Cidade de Hitchcock, Missouri, onde Michael Sam passou uma infância pobre e complicada
The New York Times
Cidade de Hitchcock, Missouri, onde Michael Sam passou uma infância pobre e complicada


Os familiares acreditam que outro irmão, Julian , também está morto. Ele saiu de casa para trabalhar em um dia, em 1998, e nunca mais voltou. Outros dois irmãos de Michael estão atualmente na cadeia.

Minha família era muito falada na cidade em que vivíamos. Todos diziam quando passávamos: 'Lá vão aqueles malditos Sams'

"Foi muito difícil crescer nesse ambiente", desabafa Michael. "Minha família era muito falada na cidade em que vivíamos. Todos diziam quando passávamos: 'Lá vão aqueles malditos Sams’. Eu não queria que fosse pintado esse quadro negativo de mim. Eu sabia que havia o bem na minha família . Ninguém sabia das adversidades que nós tivemos que suportar . Meu desejo era ter sucesso e ser um farol de esperança para minha família”, acrescenta o atleta.

De uma família da congregação Testemunhas de Jeová, Jo Ann sempre foi muito religiosa. Ela era inclusive contra que o filho jogasse futebol. "Eu amo a minha mãe profundamente, mas eu precisava de esportes, precisava para me certificar de que não ia entrar em apuros”, relata Michael.

PROCESSO DE SAÍDA DO ARMÁRIO

Michael começou a sair do armário há dois anos. Primeiro, ele falou da sua homossexualidade com alguns colegas da equipe de futebol da Universidade de Missouri. Em agosto do ano passado, o atleta se assumiu para todo o time e para a comissão técnica.

Ninguém sabia das adversidades que nós tivemos que suportar . Meu desejo era ter sucesso e ser um farol de esperança para minha família

Apesar de nunca de ter feito grandes esforços para esconder sua homossexualidade, Michael ganhou autoconfiança quando saiu do armário, o seu jogo floresceu. O colega de time e amigo L' Damian Washington reconhece essa evolução.

“Acredito que Mike teve uma grande temporada este ano porque pode ser ele mesmo”, avalia L' Damian. “Ele tinha essa grande peso em suas costas. Eu acho que foi um grande alívio não ter mais que estar sempre escondendo algo de todos”, prossegue.

Eu precisava de esportes, precisava para me certificar de que não ia entrar em apuros

Numa prova de que tinha terminado seu processo de aceitação da sexualidade, Michael frequentava desde agosto passado o SoCo Club, uma casa noturna gay na cidade de Columbia, também no Missouri. Os frequentadores de lá sabiam quem ele era, mas não tornaram essa informação pública.

“Ninguém sentiu a necessidade de tirá-lo do armário", diz Marty Newman , proprietário do SoCo Club. “Ele era respeitado aqui e tinha conquistado o direito de ser ele mesmo”, finaliza.

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