Estudante de Brasília, Junior Gomes Lisboa filmou agressões e denuncia ao iGay perseguições que sofreu de dois vizinhos do prédio em que vive

Junior Lisboa Gomes, de 19 anos, mora em Brasília, mas nasceu no Rio de Janeiro
Arquivo pessoal
Junior Lisboa Gomes, de 19 anos, mora em Brasília, mas nasceu no Rio de Janeiro

Cansado de sofrer sucessivas agressões de vizinhos em Brasília, o estudante homossexual Junior Lisboa Gomes, 19, fez na última terça-feira (04) um desabafo em seu perfil no Facebook, gerando forte repercussão na rede social.

“Sendo ameaçado e difamado na porta do meu apto (apartamento), as frases são tão fortes que tive que apagar algumas de imediato, pois tenho até vergonha de mostrar. As pessoas que fizeram só não imaginavam que estavam sendo filmadas ”, escreveu Junior, que também divulgou imagens das pichações em sua porta, além da gravação (veja abaixo) que mostra os vizinhos, um homem e uma mulher, escrevendo as ofensas. 

Carioca, Junior se mudou para a capital federal para cursar Direito. Ele vive neste apartamento desde novembro de 2012. Nos primeiros meses em que viveu lá, sua rotina era tranquila, mas no final do ano passado o estudante passou a ser agredido por dois vizinhos, que além de lhe mandar mensagens de ameaças, também pichavam sua porta.

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Na última segunda-feira (03), os vizinhos fizeram novas pichações, mas Junior conseguiu filmá-los através do olho mágico da porta de sua casa. “Como passei a fazer o mínimo de barulho para passar desapercebido, eles acharam que eu tinha me mudado. Então os ouvi conversando, dizendo que eu teria que voltar para buscar as minhas coisas e nessa hora eles acertariam as contas comigo”, narra Junior.

Junior havia instalado uma câmera falsa no porta de seu apartamento numa tentativa de demover os vizinhos das agressões, mas ela foi arrancada por eles, que desta vez escreveram palavras como “Viado”,“Bicha” e “Te Pego” na porta. Quando estava gravando, o estudante ainda teve que ouvir os agressores, que também desligaram a luz do corredor, cogitarem arrombar o seu apartamento.

Constrangido, Junior cobriu parte das ofensas escritas em sua porta com tinta branca
Arquivo pessoal
Constrangido, Junior cobriu parte das ofensas escritas em sua porta com tinta branca


Outros termos ainda mais agressivos foram escritos na porta, mas o estudante, constrangido, os apagou na mesma segunda. Depois disso, ainda abalado e com medo, Junior arrumou sua mala e voltou para a sua cidade natal, o Rio de Janeiro.

Mesmo descrente de que seus agressores possam ser punidos, Junior denunciou o crime ao Disque 100, telefone da Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República que recebe queixas de crimes de ódio. O estudante diz que ainda está tomando coragem para voltar à Brasília e fazer o boletim de ocorrência da agressão.

DE VIZINHOS CORDIAIS A INIMIGOS 

Segundo Junior, a relação com a mulher que participou das agressões era amigável quando ele se mudou para o apartamento. O primeiro contato com ela ocorreu em agosto do ano passado, quando o jovem a acompanhou até um posto de saúde. Depois disso, eles passaram a conversar e ficou comum o hábito de um levar um pedaço de bolo para o outro, ocasionalmente. 

Enquanto me batiam, eles diziam: ‘Você está de graça com a gente, seu viadinho? Você não deveria nem existir

Mas o clima de boa vizinhança acabou quando uma oferenda religiosa foi colocada na porta do apartamento dela. A vizinha passou então a acusá-lo de ser o responsável pelo artefato. “Ela me mandou varias mensagens me acusando, falando numa delas que eu tinha mexido com as pessoas erradas”, conta Junior, que teve então a sua porta pichada pela primeira vez.

Na ocasião, Junior chegou ir até uma delegacia de Brasília, mas foi desestimulado a prestar queixa pelos profissionais que o atenderam. “Levei fotos da pichação e as mensagens de ameaça até a polícia. Mas chegando lá, eles me disseram que não existiam provas suficientes e que era melhor deixar para lá”, explica o estudante.

Em todas as agressões, a tal mulher age com a ajuda do vizinho do apartamento do lado ao do estudante. A situação já desconfortável de Junior se deteriorou ainda mais quando ele pediu ajuda de um amigo policial, que foi conversar com os dois agressores.

Depois da visita do policial, Junior relata que o vizinho reuniu outros homens e o agrediu. “Enquanto me batiam, eles diziam: ‘Você está de graça com a gente, seu viadinho? Você não deveria nem existir’”, descreve o estudante, que depois dessa situação decidiu reunir provas para denunciar os autores das agressões às autoridades policiais.

DENUNCIAR É FUNDAMENTAL

O advogado especializado em direitos humanos e colunista do iGay Dimitri Sales diz que em casos como o de Junior é imprescindível registrar o boletim de ocorrência. Se as autoridades policiais procuradas se negarem a registrar a queixa, a vítima deve procurar imediatamente a corregedoria da polícia em questão, para denunciar a negligência.

Quando eu me descobri gay, minha mãe me colocou para fora de casa. A situação em que vivo agora não foi a primeira e nem será a ultima vez que vou sofrer preconceito. Enquanto viver, vou ter aprender a lidar com isso

As medidas a serem tomadas contra os agressores dependem do boletim de ocorrência. Sales acredita que o caso de Junior tem chances significativas de resultar em punição, caso haja registro policial. “Como o ato foi filmado, ele tem algo que constitui prova. O que pode levar a um processo por dano moral e material”, esclarece o jurista, que lembra ainda que o condomínio do prédio onde o estudante vive também deve agir para cessar as agressões, sob pena de ser responsabilizado. 

Esperando que o material que reuniu seja realmente suficiente para gerar punições, Junior demostra resignação em relação a situação dele e de outros homossexuais no Brasil. “Quando eu me descobri gay, minha mãe me colocou para fora de casa. A situação em que vivo agora não foi a primeira e nem será a ultima vez que vou sofrer preconceito. Enquanto viver, vou ter aprender a lidar com isso”, conclui. 

Veja o vídeo gravado por Junior Gomes Lisboa: 


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