Espancado no centro da cidade de São Paulo, o biólogo Juliano Zechini Polidoro defende que casos suspeitos de homofobia não sejam mais tratados com negligência por autoridades

A semana do biólogo Juliano Zechini Polidoro , 26, é preenchida pelo trabalho dele como pesquisador e pelos estudos que ele desenvolve na pós-graduação em Fisiologia Humana na USP (Universidade de São Paulo). Nos fins de semana, Juliano descansa dessa rotina se divertindo com os amigos na região entre as ruas Augusta e Frei Caneca, local conhecido no centro da cidade de São Paulo por concentrar inúmeros estabelecimentos voltados ao público gay.

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No último domingo (2), Juliano foi mais uma vez se divertir com os amigos num bar deste point gay. E o fim de semana se encaminhava para terminar como qualquer outro quando a volta para casa foi interrompida por uma série de socos e pontapés desferidos nele por um desconhecido, por volta das 22h30, na Rua Augusta.

“Eu estava a três quadras do metrô quando um homem me deu uma rasteira. Me virei e perguntei porque ele tinha feito isso”, relata Juliano, que não obteve resposta do desconhecido. O agressor começou então a bater nas costas e nos braços dele. “Só me lembro de pedir socorro para pessoas e ninguém fazer nada”, acrescenta o biólogo.

O socorro só veio pouco antes do homem se cansar de agredi-lo e ir embora, sem dizer nada. Um homem e mulher também desconhecidos interviram e depois o levaram a estação Consolação do metrô. Lá, ainda em choque, Juliano ligou para uma amiga e para um advogado que vieram resgatá-lo. "Fiquei sentado no chão um tempo, tentando ligar para as pessoas e chorando", conta o biólogo. 

“Um agente do metrô até veio me dizer que eu não poderia ficar ali sentado no chão. Mas eu expliquei o que tinha acontecido e outro funcionário teve a sensibilidade de me ajudar, me deixando ficar”, prossegue o biólogo. De lá, a amiga e o advogado o levaram para dar queixa da agressão e registrá-la num boletim de ocorrência na 14ª DP, no bairro de Pinheiros.

O advogado orientou Juliano a procurar especificamente esta delegacia de polícia, que teria um histórico de atender casos de homofobia sem desrespeitar os homossexuais agredidos. Lavrado como agressão, o boletim de ocorrência tem a informação de que o biólogo vê o crime como homofóbico. “O estudante acredita que foi vitima de homofobia, porém não houve ofensa com injúrias durante o ataque”, diz o texto do registro policial.

Juliano aponta a desfaçatez do agressor, que não se incomodou de cometer o crime diante de um grupo de pessoas que estavam no local no momento. “O fato é que ele sentiu confortável para fazer o que fez. Às 22h30 da noite, com um monte de gente olhando para ele”, constata.  

Na perícia, falaram que foi trauma da pancada. Não estou conseguindo mexê-lo. Sou pesquisador, sem o movimento do braço não consigo trabalhar

“Meu tipo físico, meu modo de vestir. Tudo isso fez com que eu fosse um alvo”, argumenta Juliano, que critica o fato da delegacia paulistana específica para crimes de ódio não funcionar 24 horas. “É um absurdo. O Decradi (Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância) só funciona em horário comercial”, reclama o biólogo.

Depois da delegacia, Juliano foi encaminhado ao IML (Instituto Médico Legal) para ter seu corpo periciado. Além de lesões nos joelhos e nas costas, o biólogo teve braço direito lesionado. “Na perícia, falaram que foi trauma da pancada. Não estou conseguindo mexê-lo. Sou pesquisador, sem o movimento do braço não consigo trabalhar”, lamenta ele.

Apesar de tudo, eu estou bem. Sou assumido e tenho o apoio da minha família e dos meus amigos. Dependendo de como você vive, esse tipo de situação pode te levar para o buraco, acabar com a sua autoestima

Juliano acredita que as consequências poderiam ser piores se ele não tivesse encontrado apoio familiar e das pessoas próximas. “Apesar de tudo, eu estou bem. Sou assumido e tenho o apoio da minha família e dos meus amigos. Dependendo de como você vive, esse tipo de situação pode te levar para o buraco, acabar com a sua autoestima”, avalia o biólogo, que deseja ver o agressor rapidamente encontrado e punido.

“É preciso parar de negligenciar essas situações. Não podemos ficar em negação e ver pessoas sendo espancadas e mortas como aconteceu como Bruno e não fazer nada”, desabafa o biólogo, citando o caso do estudante Bruno Borges de Oliveira , morto no último dia 26 , na mesma região em que ele foi agredido.

Procurada pela reportagem do iGay , a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo confirmou o registro do boletim de ocorrência, mas não quis comentar este caso específico e nem os outros ataques homofóbicos denunciados na mesma região.

Veja vídeo da entrevista de Juliano Zechini Polidoro ao iGay: 


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