Walcyr Carrasco fala ao iGay sobre bissexualidade e do amor do público pelo casal Niko e Félix: "As pessoas torcem muito por eles, como os heróis de uma novela tradicional, sem se importar com o fato de eles serem dois homens"

Nesta semana, todas as atenções estão voltadas para ele. Milhões de telespectadores de todo o País querem saber qual destino Walcyr Carrasco vai dar aos personagens de “Amor à Vida”, o sucesso das 21h da TV Globo. O autor encerra a trajetória da novela com audiência em alta – 35 pontos de média, picos de 43 – e a façanha de ter alçado um casal gay ao posto de heróis românticos. Nas redes sociais e nas enquetes na web , o público manifesta sua torcida para que o ex-vilão Félix ( Mateus Solano ) e o doce chefe de cozinha Niko ( Thiago Fragoso ) fiquem juntos no capítulo final da trama, na próxima sexta-feira (31).

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Apesar da insistência da reportagem, Walcyr esconde o jogo e evita dar pistas se Niko e Félix vão mesmo ter um final feliz ou se irão dar o tão esperado (e inédito) beijo gay na principal atração da TV brasileira. No entanto, ele reconhece o coro nacional para que os dois personagens tenham um romântico final feliz. “Eu sinto que as pessoas torcem muito por eles, como os heróis de uma novela tradicional, sem se importar com o fato de eles serem dois homens”, avalia o autor.

Walcyr conta que a recepção dos telespectadores aos personagens homossexuais foi muito boa e conseguiu ir além da comunidade gay. “Mesmo pessoas que não estão ligadas ao movimento LGBT se mostraram claramente favoráveis à adoção, por exemplo”, relata o autor, ressaltando a aprovação do público ao tema dos pais gays adotivos.

Eu sinto que as pessoas torcem muito por eles [Niko e Félix] , como os heróis de uma novela tradicional, sem se importar com o fato de eles serem dois homens

Aliás, a apresentação dos personagens num contexto familiar foi o grande marco de “Amor à Vida” em relação ao tema homossexualidade, para o autor. “A inclusão do gay dentro da sociedade, querendo formar uma família, ter filhos e adotar foi o tema mais importante. Essa discussão repercutiu de forma muito positiva”, aponta Walcyr.

Por outro lado, a falta de acolhimento familiar foi mostrada na novela como determinante para que Félix se tornasse uma figura amarga e capaz das piores vilanias. Desde infância, quando o começou dar os primeiros sinais de sua orientação sexual, o personagem de Mateus foi ostensivamente rejeitado pelo pai César ( Antônio Fagundes ), que chegou ao cúmulo de obrigar o filho a casar com uma mulher só para manter as aparências. Somado isso, houve a postura omissa da mãe Pilar ( Susana Viera ). 

A inclusão do gay dentro da sociedade, querendo formar uma família, ter filhos e adotar foi o tema mais importante

“Uma pessoa que é rejeitada por sua sexualidade dentro da própria família cria um preconceito contra si próprio e tem dificuldade em amar”, analisa Walcyr, sobre as consequências que esta falta de acolhimento teve na vida de Félix. Da mesma forma, o autor mostrou que o personagem conseguiu mudar visão de mundo quando passou a receber apoio e amor da amiga Márcia ( Elizabeth Savalla ) e do próprio Niko, salvando-se assim de sua própria vilania.

Uma pessoa que é rejeitada por sua sexualidade dentro da própria família cria um preconceito contra si próprio e tem dificuldade em amar

O novelista de lembra de um romance clássico do escritor francês Victor Hugo para reforçar a tese de que uma mudança como a do personagem vilão é sim possível. “Vou repetir mais vez que adoro o livro "Os Miseráveis", nele eu aprendi que um gesto de generosidade pode salvar uma vida. A pessoa que sempre está na defensiva, diante de um gesto de generosidade, questiona o próprio medo de se relacionar e a sua postura de defesa perante o outro. O amor de Márcia e Niko ajudou Félix a ver o mundo de outra maneira”, pondera Walcyr.

Walcyr Carrasco acredita que a bissexualidade será uma conduta comum da sociedade num futuro próximo
Divulgação/TV Globo
Walcyr Carrasco acredita que a bissexualidade será uma conduta comum da sociedade num futuro próximo


Gosto de pensar que todas as pessoas do mundo são, em maior ou menor intensidade, bissexuais. A sociedade é que gosta de rotular. Em certa medida, é preciso aceitar este rótulo justamente para discutir os direitos. Mas acredito na medida em que a sociedade evoluir, o número de bissexuais assumidos vai aumentar

A BISSEXUALIDADE É O FUTURO

Mesmo não sendo o tema principal em relação à sexualidade de “Amor à Vida”, a bissexualidade também foi aborda na novela por meio do personagem Eron ( Marcello Antony ), que deixou Niko para viver com a médica Amarilys ( Danielle Winits ). Muitas vezes incompreendidos até entre os gays, o bissexuais são vistos por Walcyr como algo que será cada vez mais comum num futuro próximo.

“Gosto de pensar que todas as pessoas do mundo são, em maior ou menor intensidade, bissexuais. A sociedade é que gosta de rotular. Em certa medida, é preciso aceitar este rótulo justamente para discutir os direitos. Mas acredito na medida em que a sociedade evoluir, o número de bissexuais assumidos vai aumentar”, assinala o autor de “Amor à Vida”.

Walcyr acredita que muitos homossexuais se identificam equivocadamente como bissexuais, numa necessidade de se encaixar em rótulos impostos pela sociedade. “Um homem gay, que eventualmente tenha atração por uma mulher, se vê como gay. É uma forma de enfrentar o mundo e os preconceitos”, defende ele, que é assumidamente bissexual.

Para o autor, essa necessidade de rótulos deve desaparecer com a evolução da humanidade. “Talvez, com o passar do tempo, pessoas especificamente hétero ou gay deem lugar a pessoas em paz com seus desejos e relacionamentos. Sem a discussão se é ou não é. Aliás, acredito que a juventude hoje, na faixa dos 20 anos, já tem fortemente essa tendência”, conclui Walcyr.

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