Autoridades reconhecem o acréscimo nos ataques à população homossexual e dizem que grande concentração de estabelecimentos LGBT na região colocam gays no alvo dos grupos extremistas

O eixo compreendido entre a Avenida Paulista e o centro velho de São Paulo é conhecido há décadas por muitos paulistanos e turistas como a área mais gay friendly da cidade, especialmente por concentrar casas noturnas e bares voltados ao público LGBT. É lá também que se realiza todos os anos a Parada Gay da capital paulista, a maior do País. Assim, não é incomum ver casais homossexuais de mãos dadas ou trocando carinhos.

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Por conta disso, se torna cada vez mais espantosa a sequência de episódios da mais agressiva homofobia noticiados frequentemente nesta região nos últimos anos. Casos que se avolumam e deixam a comunidade gay insegura para circular em vias como as ruas Augusta e Frei Caneca e em espaços como o Largo do Arouche e a Praça da República.

Responsável pela coordenação de políticas LGBT na Prefeitura de São Paulo, Julian Rodrigues diz que esta sensação de insegurança tem fundamento, apesar de não existirem estatísticas concretas. “Nas regiões periféricas, também temos casos de homofobia registrados, mas eles têm menos visibilidade. O fato de a violência como um todo ser maior nestas áreas acaba encobrindo os crimes de homofobia. Porém, têm sim acontecido muitos casos no centro de São Paulo”, avalia Rodrigues.

Nas regiões periféricas, também temos casos de homofobia registrados, mas eles têm menos visibilidade. O fato de a violência como um todo ser maior nestas áreas acaba encobrindo os crimes de homofobia. Porém, têm sim acontecido muitos casos no centro (Julian Rodrigues)

Para o coordenador, a alta frequência do público LGBT na região é proporcional ao acréscimo nos casos de homofobia. “O centro é um lugar de baladas, ruas, praças e bares voltados aos gays. Quando existe visibilidade, a vulnerabilidade aumenta”, pontua ele.

Ocupando um posto equivalente ao de Rodrigues no governo do estado de São Paulo, a coordenadora Heloisa Gama acredita que a concentração da população LGBT na região atrai, infelizmente, a atenção de grupos extremistas como os skinheads, além de grupos religiosos fundamentalistas.

“Quando eles querem cometer um ato de violência, vão onde tem um alvo evidente. Por outro lado, temos a questão de espaço conquistado. Quando a população LGBT exige direitos e a investigação dos ataques, conseguindo espaço na mídia, aumenta, consequentemente, a intolerância dos grupos religiosos”, opina Gama, oferecendo mais uma hipótese para o aumento dos ataques homofóbicos na região central.

REPENSAR O POLICIAMENTO

Gama entende que o modo de se fazer o policiamento nestas áreas deve ser repensado, para que se torne mais eficiente em coibir os ataques.

Rodrigues concorda com esta proposta, mas diz que a prefeitura da cidade tem poderes limitados. “Como cidadão e gay, é nítido para mim que há uma deficiência desses lugares em termos de segurança. É preciso haver um reforço, com certeza. Mas é necessário deixar claro que as ações da Guarda Civil Metropolitana são de proteção ao patrimônio de ordem pública, não de enfrentamento. O que podemos fazer são ações de combate à homofobia e politicas afirmativas”, propõe o coordenador.

Responsável por esse policiamento mais ostensivo, a Policia Militar ainda não tem nenhuma política direcionada especificamente para os casos de homofobia, apenas atua pontualmente para proteger a população LGBT em casos especiais.

“A regra geral da PM é proteger pessoas independentemente do gênero, e em momentos específicos, como a Parada Gay, fazemos uma intensificação do policiamento, porque sabemos que grupos extremistas tendem a atacar”, explica o capitão Sérgio Marques , porta-voz da PM paulista, acrescentando que lugares como a Avenida Paulista e o Largo do Arouche, que registraram ataques homofóbicos, têm sua segurança reforçada por conta da grande fluxo de pessoas.

O centro é um lugar de baladas, ruas, praças e bares voltados aos gays. Quando existe visibilidade, a vulnerabilidade aumenta (Julian Rodrigues)

Titular da DECRADI (Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância), Margarete Barreto ressalta que o preconceito ainda é muito forte na vida brasileira, que se manifesta como violência não só contra os homossexuais, mas também com outros grupos. “De maneira geral, a sociedade deve sempre prestar atenção aos locais de grande frequência. Se há neles condições de iluminação e policiamento”, recomenda a delegada, reforçando a necessidade de se denunciar os casos de agressão verbal e física. “É imprescindível fazer um registro policial sempre que alguém é vítima de violência”.

10 ANOS PARA SE RECUPERAR

Hoje com 37 anos, o fotógrafo Gustavo , que prefere não revelar seu nome verdadeiro, ainda tem fresco na memória o ataque que sofreu há 12 anos na região da Avenida Paulista, ao descer de um ônibus da Rua da Consolação. “Ele me deu uma gravata no pescoço e começou a socar o meu rosto, gritando ‘Te peguei viado, whitepower (poder branco)’”, relata ele, lembrando a frase do skinhead que o agrediu.

Ele me deu uma gravata no pescoço e começou a socar o meu rosto, gritando ‘te peguei viado, white power' (Gustavo)

Gustavo fugiu e tentou se abrigar num estacionamento, mas, para a sua surpresa, o funcionário também o agrediu, só que verbalmente. “Quando pedi que chamassem uma ambulância, o funcionário falou para mim: ‘Some daqui sua bicha, antes que eu termine o serviço’”, descreve o fotógrafo, que foi ajudado por um garçom de um bar. Logo depois, o pai o levou ao hospital.

”Permaneci 20 dias internado e precisei de um ano para me recuperar fisicamente”, relata o fotógrafo, que levou ainda mais tempo para se refazer emocionalmente, levando mais de dez anos para conseguir sair com mais tranquilidade. “Nunca mais foi a mesma coisa. Preferia ficar em casa estudando música, foi como se eu tivesse virado um monge”, conclui.

Gustavo denunciou as agressões, mas os responsáveis nunca foram encontrados e punidos. Quando foi dar queixa do crime, ele ainda teve que passar por um constrangimento na delegacia. "O delegado disse ao meu pai: ‘você tem certeza que quer fazer o boletim de ocorrência? Você esta atestando para corporação (policial) que seu filho é um pederesta’”, relata o fotógrafo. 

Tão agressiva como o ataque homofóbico, a postura do delegado que atendeu Gustavo expõe mais um drama de quem sofre homofobia: o desrespeito de alguém que é pago justamente para proteger os cidadãos.


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