Vietnamita radicado em Nova York, Kevin Truong já fotografou 350 homens em 15 cidades, inclusive nas brasileiras São Paulo e Rio de Janeiro

A iniciativa The Gay Men Project tem um princípio bem simples: registrar em fotos o cotidiano de homens gays em diferentes cidades do mundo. Mas a ideia por trás dela nem por isso é simplista, como explica o seu criador, o fotógrafo vietnamita radicado em Nova York Kevin Truong . “Eu estou tentando criar uma plataforma onde homens gays podem se mostrar orgulhosos e contar suas histórias. Criar um lugar que as pessoas possam visitar e lá ouvir essas histórias”, defende Truong, que já visitou metrópoles como Londres, Paris, Los Angeles e Montreal, entre outros lugares. São Paulo e Rio de Janeiro também receberam a visita do projeto.

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Truong decidiu criar o Gay Men Project a partir de uma experiência pessoal. Quando saiu do armário para a mãe, o fotógrafo notou que ela ficou confusa sobre as consequências que aquela revelação ia trazer para o comportamento e o visual dele.

“Ela foi muito acolhedora, mas também ficou muito confusa. Isso ficou evidente no rosto dela. Mais tarde, quando eu perguntei o que ela estava pensando, ela quis saber se o meu visual ia ficar diferente. Se eu ia passar por mudanças físicas ou visuais, com usar um vestido, por exemplo. Como mulher vietnamita aos 56 anos, ela tinha pouquíssimas referências sobre o modo de viver de um homem gay, o que ela conhecia eram estereótipos”, relata o fotógrafo, que percebeu neste momento o desconhecimento geral do público sobre a comunidade LGBT.

Ao mesmo tempo, Truong percebeu que o seu trabalho podia ser uma ferramenta para ajudar a mudar essa situação. “É uma fonte informação para as pessoas como a minha mãe, que sabem pouco da vida dos gays, e também para os homossexuais não assumidos, que não conseguem ter contato direto com a comunidade LGBT”.

Trabalhando como fotógrafo publicitário em Nova York, Truong investe os rendimentos de seu trabalho no projeto. Ele usa a internet e as redes sociais para encontrar personagens.“Quando eu fui ao Rio de Janeiro e a São Paulo, fiz amizade online com um homem gay em cada cidade, e também tinha um amigo de faculdade no Rio. Eles foram ótimos para me conectar com a comunidade, me ajudando a encontrar caras para fotografar.”

O anfitrião paulistano até ajudou o fotógrafo a diminuir os custos da viagem. “Meu contato em São Paulo me acolheu em casa. Eu o considero como um amigo, assim como o cara do Rio de Janeiro”, conta Truong, que na maioria das viagens conta com hospedagens voluntárias. Entre outubro e novembro do ano passado, ele fotografou 29 pessoas nas duas cidades brasileiras.

Entre os 350 homens que eu conheci e fotografei em 15 cidades do mundo, os pontos comuns eram muito mais fortes. As disparidades aparecem muito mais por questões de nacionalidade (Kevin Truong)

Truong fala com entusiasmo de sua passagem pelas duas cidades. “Eu amo o Brasil. Na verdade, foi a minha viagem favorita. Eu realmente me apaixonei pelo País como um todo. Foi uma experiência rica, as pessoas, a cultura e a comida – mesmo tendo tido problemas com o acarajé”, brinca o fotógrafo, rindo ao lembrar o desconforto intestinal causado pelo quitute baiano.

Os extremos tão típicos do Brasil também impressionaram. “Um dia eu estava fotografando um membro do Congresso, (o deputado federal) Jean Wyllys , e no seguinte estava tirando uma foto de uma criança na área rural de Mesquita (Rio)”, descreve o fotógrafo, que ressalta outra qualidade local. “Eu acho os homens brasileiros muito bonitos”.

O deputado federal Jean Wyllys também fotografado pelo The Gay Men Project, num aeroporto do Rio de Janeiro
Kevin Truong
O deputado federal Jean Wyllys também fotografado pelo The Gay Men Project, num aeroporto do Rio de Janeiro

Apesar destas características particulares, Truong não vê muita diferença entre os homossexuais de diferentes cantos do planeta. “Entre os 350 homens que eu conheci e fotografei em 15 cidades do mundo, os pontos comuns eram muito mais fortes. As disparidades aparecem muito mais por questões de nacionalidade. Por exemplo, a cultura vietnamita e a brasileira são muito distintas. Então, é claro que em muitos aspectos esses homens são muito diferentes.”, observa ele.

A maioria dos homens gays vive as mesmas questões, o sentimento de sentir diferente ou isolado, a experiência de querer ou ter que dizer às pessoas ao seu redor que você é gay . Acredito que essas semelhanças criam uma identidade que conecta todos nós (Kevin Truong)

“A maioria dos homens gays vive as mesmas questões, o sentimento de sentir diferente ou isolado, a experiência de querer ou ter que dizer às pessoas ao seu redor que você é gay . Acredito que essas semelhanças criam uma identidade que conecta todos nós “, prossegue Truong, lembrando ainda de um frase de personagem que o marcou. “Um cara que eu fotografei disse algo perfeito: ‘ser gay significa muito e nada ao mesmo tempo’”.

O fotografo vietnamita já faz planos para voltar às terras brasileiras. “Eu quero ir ao para o sul do País, talvez Florianópolis. E mais ao norte, em lugares como Salvador, e em partes da Amazônia. Mas antes disso, tenho que começar a aprender português”, finaliza Truong.

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