Em artigo especial para o iGay, padre excomungado da Igreja Católica por defender amor gay diz que papa Francisco não vai conseguir reverter conservadorismo imposto pelos antecessores, mas contribuirá para um futuro mais tolerante da instituição

Roberto Francisco Daniel, o Padre Beto, 47, foi excomungado pela Igreja Católica em 2013 por causa de sua visão progressista da sexualidade
Divulgação
Roberto Francisco Daniel, o Padre Beto, 47, foi excomungado pela Igreja Católica em 2013 por causa de sua visão progressista da sexualidade

Todos estão se surpreendendo, com certeza, com as posturas e as declarações do atual pontífice. Não foi por menos que a revista americana Time o elegeu como a personalidade do ano. O primeiro papa latino-americano chegou ao posto com energia, presença marcante e com o nome de um santo que era revolucionário, porém humilde. Mas Francisco não tem somente presença midiática. Ele inicia o processo de mudança da cúria romana fazendo declarações livres, que não se prendem à rigidez da atual doutrina católica.

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Mas a grande questão que fica é: diante deste papa, o quê a comunidade LGBT pode esperar num futuro próximo? Posso estar errado, mas acredito que não dá para esperar muito ou quase nada. Nós não podemos esquecer que apesar deste papa sinalizar um diálogo com todos os seguimentos da sociedade, a mentalidade da atual Igreja Católica, de sua hierarquia e de muitos leigos é fruto de um processo histórico que se iniciou no final dos anos 80. Certamente, será necessário um bom período para que esta mentalidade seja transformada.

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Com o atual rebanho, o papa Francisco não poderá tomar medidas concretas que venham a alterar as regras morais e a visão preconceituosa da instituição sobre a sexualidade. Acredito que a estratégia será alterar primeiro a mentalidade do clero e dos fieis leigos com seus discursos e posturas pessoais

Depois da morte súbita do papa João Paulo I - que prometia ser um papa progressista - e da nomeação de João Paulo II começou na Igreja Católica um processo crescente de conservadorismo. João Paulo II, apesar de sua postura midiática e de seus gestos carismáticos, apoiou movimentos conservadores e até mesmo fundamentalistas durante o seu longo papado. Aos poucos, a Teologia da Libertação e outras iniciativas de uma fé comprometidas com o ser humano e mais próximas dos Evangelhos foram desaparecendo, sendo substituídas por uma religiosidade neopentecostal, intimista e moralista.

Padre Beto:
Reuters
Padre Beto: "O que temos que fazer é aplaudir o papa atual depois de cada 'cutucão', e esperar que os católicos possam se tornar pessoas mais críticas e reflexivas"


A contribuição do papa Francisco será, na verdade, preparar uma Igreja para que os futuros papas possam inserir concretamente uma visão mais sadia sobre o ser humano e sua sexualidade

Bento XVI representou o ápice deste processo de fechamento da Igreja para transformações progressistas e liberais. Se prendendo a preceitos morais rígidos e cultivando uma ligação simplesmente intimista com Deus. Com isso, algumas consequências começaram a surgir para a Igreja durante a última década do século passado e no início deste milênio. Como, por exemplo, a entrada de pessoas em sua hierarquia que não possuem uma fé inserida na realidade e, consequentemente, ingênuas na vida concreta. Mais: também houve surgimento de pessoas que estão interessadas no poder administrativo e financeiro da Igreja. E pior: muitas lésbicas e homossexuais que não aceitam sua sexualidade ou querem fugir da pressão familiar e social acabaram se escondendo - sem vocação, portanto - por detrás da batina ou do hábito.

É com este contexto interno da Igreja que o nosso papa Francisco terá de se confrontar. Com o atual rebanho, o papa Francisco não poderá tomar medidas concretas que venham a alterar as regras morais e a visão preconceituosa da instituição sobre a sexualidade. Acredito que a estratégia será alterar primeiro a mentalidade do clero e dos fiéis leigos com seus discursos e posturas pessoais.

A contribuição do papa Francisco será, na verdade, preparar uma Igreja para que os futuros papas possam inserir concretamente uma visão mais sadia sobre o ser humano e sua sexualidade. Até lá, o que temos que fazer é aplaudir o papa atual depois de cada “cutucão”, e esperar que os católicos possam se tornar pessoas mais críticas e reflexivas.

Acredito que no futuro um papa terá que pedir perdão à comunidade LGBT (como foi feito com os judeus) pela omissão e pelo incentivo (mesmo que atualmente velado) do preconceito e da homofobia

Sem dúvida alguma, esta morosidade da Instituição não deixa de ser contraditória. Afinal, sua mensagem vem de um ser vanguardista que não acompanhou as mudanças de sua sociedade, mas que estava além dela. Assim deveriam ser os seguidores de Jesus Cristo, pessoas que estão além da mentalidade atual e ajudem a humanização e a evolução do ser humano. Infelizmente, acredito que no futuro um papa terá que pedir perdão à comunidade LGBT (como foi feito com os judeus) pela omissão e pelo incentivo (mesmo que atualmente velado) do preconceito e da homofobia.
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*Roberto Francisco Daniel, o Padre Beto, é formado em Direito, Radialismo, Teologia e História e autor do livro "Verdades Proibidas" (Alto Astral). www.padrebeto.com.br


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