Para conquistar uma fatia maior num mercado que fatura anualmente R$ 395 bilhões em todo o mundo, País precisa investir mais em treinamento de profissionais e incentivar tratamento natural e igualitário ao consumidor LGBT

O verão começou neste fim de semana e com ele se inicia um grande fluxo de turismo gay no Brasil. Entre tantas cidades que recebem esses visitantes, o Rio de Janeiro se destaca pelos números superlativos. Segundo dados de 2010 da Out Now, consultoria global dedicada ao marketing LGBT, 500 mil turistas homossexuais desembarcam todos os anos na capital fluminense. Diariamente, eles injetam R$ 5 milhões na economia local. O gasto médio é de R$ 400 por dia.

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Ao mesmo tempo em que se destaca por esses números, o Rio também merece atenção por personificar a situação de vários destinos gays no Brasil, que reúnem grande quantidade de atributos para atrair esse consumidor (como belezas naturais e vida noturna variada), mas que ainda estão longe de apresentar excelência na qualidade do atendimento.

Melhorar essa situação é fundamental para que o País conquiste uma fatia maior no mercado turístico LGBT, que rende significativos R$ 395 bilhões por ano em todo o mundo.

“Alguns destinos já estabeleceram boas políticas de atendimento ao turista LGBT, mas a grande maioria está atrasada”, aponta Martha Dalla Chiesa , presidente da Associação Brasileira de Turismo para Gays, Lésbicas e Simpatizantes (ABRAT-GLS). “Se pegarmos as 12 cidades que sediarão a Copa do Mundo, por exemplo, veremos que apenas São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Recife estão razoavelmente preparadas para receber esse turista”, analisa a presidente da ABRAT GLS, ponderando que o evento máximo do futebol mundial deve atrair pouco o público LGBT.

Responsável pela Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual da prefeitura do Rio (CEDS), Carlos Tufvesson aponta alguns esforços da capital fluminense para receber melhor o turista gay.

“Um dos fatores de maior peso que o turista gay faz ao escolher uma cidade para visitar ou não é a política de cidadania LGBT. O preconceito pode acometer a todos em todos os lugares, mas o Rio tem leis que resguardam o LGBT”, explica Tufvesson, que destaca a lei local que pune os estabelecimentos comerciais que recriminem a troca de carinhos pública entre um casal gay. No entanto, o coordenador do CEDS reconhece que ainda há muito a melhorar. “De maneira geral, o atendimento de serviços no país está muito ruim. Não podemos ter a ilusão de que estamos no nível da Noruega”, avalia ele.

Se pegarmos as 12 cidades que sediarão a Copa do Mundo, por exemplo, veremos que apenas São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Recife estão razoavelmente preparadas para receber esse turista (Martha Dalla Chiesa)

Coordenador-geral de Programas de Incentivo a Viagens do Ministério do Turismo, Wilken Souto tem uma visão mais otimista da questão, apontando inclusive os avanços das já citadas cidades do Rio, São Paulo, Recife e Salvador, e também de Florianópolis, Brasília, Maceió e Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul. Ele diz ainda que políticas têm sido desenvolvidas para capacitar as cidades brasileiras a receber o público gay. “Foram criados editais que contemplam apoio aos eventos LGBT, como as paradas”, exemplifica Souto, lembrando que todos os municípios brasileiros podem se candidatar a receber recursos.

Souto ressalta que agentes públicos, empresários do setor e militantes LGBT têm discutido maneiras de sensibilizar os prestadores de serviço, como agentes de viagem, funcionários de pontos turísticos e trabalhadores da hotelaria. Ele cita a 2ª Conferência Nacional de Políticas Públicas e Direitos Humanos de LGBT, que aconteceu em 2011, em Brasília, como um momento importante dessa discussão.

Natural e igualitário

A presidente da ABRAT-GLS ressalta que quem trabalha com o consumidor LGBT deve entender que os gays não desejam um tratamento diferente dos outros turistas, mas sim respeito à sua individualidade e à sua orientação sexual. “O atendimento específico para esse público não é nada mais do que o natural e igualitário. O fundamental é lidar com o público LGBT sem preconceito ou desconforto”, observa Chiesa.

O atendimento específico para esse público não é nada mais do que o natural e igualitário. O fundamental é lidar com o público LGBT sem preconceito ou desconforto (Martha Dalla Chiesa)

Desta forma, não deve ser oferecido um quarto com duas camas de solteiro para um casal gay que reservou uma cama de casal, por exemplo. Neste sentido, Chiesa acredita que o treinamento deve ser feito em duas frentes. “Na primeira, o trabalho se dá com gestores, profissionais de recursos humanos e em cargos de comando. Na segunda, os trabalhadores da linha de frente, como garçons, recepcionistas e camareiras”, descreve a presidente da ABRAT-GLS.

Os estabelecimentos que atendem o público LGBT deve evitar constrangimentos desnecessários
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Os estabelecimentos que atendem o público LGBT deve evitar constrangimentos desnecessários

Para Chiesa e Tufvesson, as políticas públicas e privadas que visam um atendimento natural e igualitário ao turista LGBT não vão ter tanto resultado se iniciativas como o projeto de ‘cura gay’ prosperarem no Congresso Nacional, dando ao Brasil uma imagem internacional de nação intolerante.

O recente congelamento no Congresso do projeto de lei que pune a homofobia também entra nesta conta de itens que atrapalham a imagem do Brasil lá fora. “No começo do ano, estávamos animados por conta da aprovação do casamento gay. Mas agora, no final, vimos uma série de retrocessos no Congresso”, lamenta Chiesa.

“O grande problema do nosso país é que estamos nos tornando intolerantes e as minorias não se unem. Desta forma, acabamos não conseguindo representação parlamentar, o que torna tudo mais difícil”, finaliza Tufvesson.

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