Encolhendo desde que a cidade foi eleita para sediar o evento, o declínio de locais voltados para LGBT se acentuou depois da entrada em vigor as leis antigays do pais

Reuters

Sochi, a cidade que irá sediar os jogos olímpicos de Inverno no próximo ano
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Sochi, a cidade que irá sediar os jogos olímpicos de Inverno no próximo ano

No Mayak Cabaret, uma das poucas boates gays em Sochi, cidade russa que recebe em fevereiro a Olimpíada de Inverno de 2014, praticamente só há casais héteros para assistir ao show do travesti que dubla "Diamonds Are a Girl's Best Friend".

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A cena gay de Sochi vem encolhendo desde que a cidade foi eleita para sediar o evento, e o declínio se acentuou depois da entrada em vigor, neste ano, de uma lei russa que proíbe a "apologia" da homossexualidade para menores. Alguns ativistas questionam a legalidade dessa medida, e outros defendem um boicote à Olimpíada de Inverno.

Muitos membros da comunidade LGBT de Sochi foram embora da Rússia, e temem agora que a reputação de tolerância do balneário diminua ainda mais.

"Não há comunidade gay aqui, é um mito", disse Roman Kochagov , sócio do Mayak. "O número de gays cai há anos. A cada ano há cada vez menos... Agora eles praticamente desapareceram", afirmou, contando que ele também cogita ir embora da Rússia.

Ele diz que, numa noite qualquer, os homens gays são apenas um terço da clientela - número bem inferior ao da época da inauguração da casa, há nove anos.

O crescente conservadorismo do governo de Vladimir Putin em questões sociais tem levado a um crescimento da influência da Igreja Ortodoxa, cujo patriarca já declarou ver na homossexualidade uma das maiores ameaças à Rússia. Nos meios de comunicação, o discurso homofóbico é cada vez mais comum.

Mas, para os padrões russos, Sochi ainda tem um caráter notavelmente liberal.

"As pessoas aqui não ligam com quem eu durmo. Saio pela rua com meu namorado, as pessoas sabem que sou gay, mas ninguém presta atenção", disse Marcel Aflin , de 30 anos, que trabalha na cidade petroleira de Salehkard, no norte russo, e foi a Sochi pegar uma praia.

No entanto, o balneário é bem menos tolerante do que a maioria das cidades da Europa Ocidental. Por isso, muitos homossexuais locais preferiram trocar Sochi por cidades como Berlim ou Barcelona.

Durante a época soviética, Sochi ganhou fama de lugar tolerante, especialmente ao se tornar um importante destino turístico numa época em que as autoridades soviéticas determinavam que marido e mulher deveriam passar férias separados entre si e dos filhos.

Assim, o balneário se tornou cenário de muitos romances de verão, entre pessoas casadas ou não.

A homossexualidade, que era crime na URSS, foi legalizada apenas em 1993. Mas, quando a União Soviética desmoronou, as praias de Sochi já eram conhecidas como "paqueródromo" para homossexuais.

"Muitíssimos gays sabiam disso e iam para lá", disse David Tuller , que escreveu um livro sobre a vida dos homossexuais na Rússia, lançado em 1996. "Ela sempre teve a fama de ser um lugar onde você podia paquerar na praia."

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