Estreia na direção de longa-metragem da atriz Leandra Leal, o filme está dependendo de arrecadação via crowdfunding para ser viabilizado. A data final para complementar a quantia necessária é 9 de dezembro

Leandra Leal e as estrelas de seu documentário
Divulgação
Leandra Leal e as estrelas de seu documentário "Divinas Divas"

Leandra Leal quer ver Rogéria , Jane Di Castro , Divina Valéria , Camille K , Fujika de Halliday , Eloína dos Leopardos , Marquesa e Brigitte de Búziosos , travestis pioneiros no showbiz brasileiro, brilharem. No palco, nos bastidores do teatro e na tela do cinema.

O espetáculo cômico-musical "Divinas Divas", que está em cartaz há dez anos, serviu de pano de fundo para o documentário que a atriz está dirigindo sobre a trajetória dos primeiros homens que se travestiram de mulher na época áurea do teatro de revista nos anos 1960, e que em 2014 completam 50 anos de carreira.

O filme, que deve se chamar "Divinas Divas" também, marca a estreia de Leandra como diretora de longa-metragem. “Gosto muito desse nome, porque acho que ele traduz toda a irreverência das personagens e remete ao universo delas”, diz ela.

No dia 5 de dezembro, o site do crowdfuning de
Reprodução
No dia 5 de dezembro, o site do crowdfuning de "Divinas Divas" mostrava déficit de R$ 42.675,00

Para financiar o documentário, coproduzido pelo Canal Brasil, Leandra Leal recorreu ao crowdfunding (financiamento coletivo), já que não foi possível encontrar patrocinadores interessados em se envolver com o projeto. Mas a viabilização do filme ainda depende de arrecadação.

Ela tem até dia 9 de dezembro para atingir a quantia necessária para complementar os recursos das filmagens.O apoio pode ser dado através do site www.benfeitoria.com/divinas . Se a meta não for atingida, todo o dinheiro arrecadado será devolvido. A situação atual é esta que aparece na imagem ao lado.


SHOW SEM INGRESSOS

Dias 13 e 14 de dezembro serão especiais para a carreira das "divinas divas". Estão marcadas duas apresentações especiais do espetáculo teatral no Teatro Rival, no Rio, com audiência formada exclusivamente por colaboradores do projeto.

Não há ingressos à venda: quem colaborar com a partir de R$ 100,00 - no site mencionado acima ou como doação na bilheteria do teatro - ganha um convite para assistir a esta versão glamurizada do musical, com orquestra ao vivo, que terá apresentações filmadas para o documentário, com cenas de palco e de bastidores. Além de cantar, dublar e dançar, as artistas contam boas histórias de suas vidas.

Leia seguir a entrevista que Leandra Leal concedeu ao iGay.

Conheço grande parte do elenco de 'Divinas Divas' desde criança. Achava que travestis eram seres super poderosos, inexplicáveis e sábios, ácidos e ao mesmo tempo delicados como crianças

iG: De onde surgiu o interesse pelo universo das artistas travestis?

Leandra Leal: Eu conheço grande parte do elenco das “Divinas Divas” desde criança. A casa de que eu tenho a maior lembrança na minha infância é o teatro do meu avô, o Teatro Rival. Eu assistia a shows e peças da coxia, comemorava aniversários nos camarins, levava amigos para passar o dia brincando no palco enquanto minha mãe trabalhava. O Rival foi um dos primeiros palcos a abrigar homens vestidos de mulher nos anos 1960 e 1970, iniciativa do meu avô Américo Leal, que já dirigia o teatro.

iG: Como surgiu a ideia de financiamento coletivo?

Leandra Leal: A realização colaborativa de projetos é uma tendência mundial. Há muitos projetos pelo mundo que conseguem arrecadar quantias enormes através de pessoas que acreditem na ideia e/ou sejam beneficiadas por ela.

iG: Quais alternativas foram tomadas antes de chegar até essa opção?

Leandra Leal: Buscamos todos os meios tradicionais de patrocínio para projetos culturais no Brasil: enquadramos em leis de incentivo, inscrevemos em editais públicos e privados, apresentamos o projeto para diretorias de empresas de diferentes portes. Mas, infelizmente, apesar do reconhecimento da importância dessas artistas e da qualidade da equipe técnica envolvida no filme, nenhum patrocinador assinou um contrato. Entendemos que há um preconceito enorme ainda em relação ao tema do travesti, em especial quando associado à velhice.

iG: Na sua pesquisa e agora nas filmagens alguma história te marcou?

Leandra Leal: Na convivência com as Divas, muitas histórias me marcam a cada dia. Elas possuem feitos inacreditáveis... A Eloína, por exemplo, foi a primeira Rainha de Bateria a estrear na Sapucaí em 1976 pela Beija-Flor - sem ninguém saber que ela era um travesti. Ela e o Joãosinho Trinta enganaram todo mundo por dois anos! Também na década de 70, a Marquesa fez uma cerimônia de casamento nos moldes tradicionais só para a revista Fatos e Fotos. Foi um bafafá enorme! Como essas, são inúmeras as histórias que escuto.

iG: Qual sua relação pessoal com o universo LGBT?

Leandra Leal: A homossexualidade foi apresentada a mim como algo natural desde criança, um direito pessoal de cada um. Lembro da sensação que eu tinha ao encontrar um travesti, achava que eram seres super poderosos, inexplicáveis e sábios, cheios de frases de efeito, extremamente engraçados, ácidos e ao mesmo tempo delicados como crianças.

A homossexualidade foi apresentada a mim como algo natural desde criança, um direito pessoal de cada um.

iG: O que existe de mais interessante nesse universo, em especial o das artistas travestis?

Leandra Leal: O que mais me interessa nelas é o potencial artístico de cada uma, a importância central da arte na vida delas, os sacrifícios e superações. Desde que assisti às primeiras apresentações do espetáculo Divinas Divas no Rival, fiquei muito impressionada com o talento das Divas em cena. Diferentes entre si, cada uma tem um estilo próprio e ainda assim formam um grupo coeso. As canções no show são sempre espertamente introduzidas por uma história pessoal que acentua a emoção da música. Os números de plateia são engraçados, irreverentes. O espetáculo tem um visual kitsch e um delicioso ambiente nonsense.

iG: Em o "Uivo da Gata" você interpreta uma lésbica, como foi sair de uma espectadora do universo LGBT para integrá-lo por meio de um personagem?

Leandra Leal: "O Uivo da Gaita" faz parte da Operação Sônia Silk, um projeto muito importante na minha carreira porque marca minha estreia como produtora de cinema. É o primeiro longa-metragem lançado pela DAZA, minha produtora em sociedade com a Carolina Benjamin e a Rita Toledo, pela qual estou realizando agora o Divinas Divas. Foi uma experiência muito bacana neste sentido, pois me permitiu circular por outros papéis no cinema.

iG: Como foi fazer um par romântico com a Mariana Ximenes?

Leandra Leal: A Mari é minha amiga antiga e uma atriz que eu admiro, isso facilita na hora de filmar.

Sou favorável à plena garantia dos direitos civis individuais: não é o estado que deve ditar o que as pessoas podem ou não fazer com o próprio corpo

iG: Qual sua posição sobre o casamento gay e a criminalização da homofobia?

Leandra Leal: Sou favorável à plena garantia dos direitos civis individuais: não é o Estado que deve guiar as opções sexuais de cada um, ou que deve ditar o que as pessoas podem ou não fazer com o próprio corpo. Neste sentido, as Divinas Divas são ícones da luta pela garantia desses direitos.

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