Chamado por Daniela Mercury de “o nosso Harvey Milk”, fundador do Grupo Gay da Bahia avalia que os gays ainda não tiveram tempo de experimentar os ônus e os bônus do casamento

Depois do casamento, nomes novos para as duas: Daniela Mercury de Almeida Verçosa e Malu Verçosa de Sá Mercury
Reprodução/Instagram
Depois do casamento, nomes novos para as duas: Daniela Mercury de Almeida Verçosa e Malu Verçosa de Sá Mercury

Político e ativista gay americano, Harvey Milk foi o primeiro homem abertamente gay a ser eleito para um cargo público na Califórnia, em 1977. Luiz Mott , 67 anos, nascido em São Paulo, é professor titular de antropologia da Universidade Federal da Bahia (Ufba), fundador do Grupo Gay da Bahia, pai de duas filhas e avô de dois netos nisseis.

Ex-seminarista e decano do movimento gay, Mott conta que foi mencionado no discurso de agradecimento de Daniela Mercury no prêmio “Rio Sem Preconceito”, no dia 26 de novembro, quando a cantora se referiu a ele como “o nosso Harvey Milk”. Mott retorna a gentileza elogiando o fato de ela ter assumido sua homossexualidade e se casado publicamente com sua mulher. “Os casamentos de Daniela, Maria Gadu e de outras estrelas como Alexandre Herchcovitch são uma vitória imensurável para a visibilidade LGBT, na medida em que servem de espelho para outros casais assumirem a coragem de dizer o nome de seu amor.”

VEJA NA GALERIA ABAIXO ALGUMAS FAMOSAS QUE SE CASARAM ESTE ANO:

Daniela e Malu fizeram mais: ambas mudaram de nome depois do casamento. Daniela passou a assinar Daniela Mercury de Almeida Verçosa e o nome de casada de Malu passou a ser Malu Verçosa de Sá Mercury. Porém, o sempre polêmico Mott nota que os gays e as lésbicas estão na contramão do resto da população: enquanto a maior parte das pessoas quer se divorciar, ficar, ter “amizade colorida”, os homossexuais lutam para ter o direito de se amarrar legalmente com os laços do matrimônio. “Os gays e as lésbicas são o último grupo romântico do mundo”, afirma.

Luiz Mott na Parada gay da Bahia
Futura Press
Luiz Mott na Parada gay da Bahia

Embora defina como “uma crise mundial” o momento por que passam os casais heterossexuais, considera uma “luta revolucionária e fundamental” a dos gays pelo direito de se casar. Segundo ele, porque demonstra que o homossexualismo é muito mais do que sexo, erotismo, curtição sexual apenas, incluindo o desejo de uniões estáveis, duradouras e familiares.

Se com o tempo concluírem que se trata de um entulho pequeno-burguês e repressor das liberdades, existe o divórcio para o fim de todos os casamentos

Se com o tempo concluírem que se trata de mais um “entulho pequeno-burguês” e “repressor das liberdades”, existe o divórcio para o fim de todos os casamentos, ele pontua.

“Desde os anos 80, eu e o Grupo Gay da Bahia lutamos pelo casamento igualitário, aceitamos com restrições as parcerias civis, as uniões estáveis, mas sempre priorizando os direitos iguais”.

BRASIL NA PONTA DE DUAS ESTATÍSTICAS OPOSTAS

A aprovação do casamento homoafetivo, que aconteceu por decisão do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) em maio deste ano, representa um conjunto de cidadania vital e equipara o Brasil aos países mais civilizados do primeiro mundo.

Por outro lado, nosso país ostenta a vergonhosa marca de ser líder mundial em crimes homofóbicos. “A cada 26 horas, segundo relatório anual de assassinatos de homossexuais, um LGBT é barbaramente assassinado pela vítima da homofobia”, diz ele.

Agnaldo Timóteo e outros homofóbicos demonstraram ciúme midiático e alienação política de não ver as vantagens de abertura do armário

Segundo ele, 90% dos homopraticantes vivem na clandestinidade no Brasil. E ainda assim alguns famosos, “a exemplo de Agnaldo Timóteo e outros homofóbicos”, se colocaram na posição de críticos de plantão para desclassificar o casamento de vips homossexuais. Para ele, a postura crítica de Timóteo demonstra ciúme midiático e uma alienação política de não reconhecer as vantagens da abertura do armário num país onde os gays sofrem violência e são condenados à clandestinidade.

SER GAY NA BAHIA

Segundo Mott, paulistano que chegou à Bahia nos anos 70, a sociedade baiana é extremamente ambígua e contraditória em relação à homossexualidade. Ao mesmo tempo em que a presença homossexual é muito forte desde os tempos de Gregório de Mattos, no século XVII, até os Novos Baiano e a fluidez que demonstram artistas como Caetano, Gil, Simone, Maria Bethânia e Gal, nos últimos anos a Bahia liderou a lista de assassinatos de homossexuais. Ou seja, nesse assunto, “A Bahia ao mesmo tempo é aquela que aplaude e joga pedra”.

A própria “saída do armário” de Daniela, ele diz, refletiu essa ambiguidade. Enquanto os filhos jovens reagiram bem e mesmo aplaudiram, a mãe, vice-reitora da Universidade Católica de Salvador (UCSAL), chegou a comentar que preferia que a filha não fizesse tamanha publicidade.

Com relação aos homossexuais, a Bahia é aquela que ao mesmo tempo aplaude e joga pedra

Mott tem sua experiência pessoal para usar como exemplo. Na década de 70, ele diz ter sido o primeiro homossexual assumido no meio intelectual. Na época, um conhecido jornal local se referiu a ele como “um travesti repelente”. De acordo com ele, quando foi agredido pelo conhecido jornal, Caetano Veloso saiu em sua defesa e teve o seu artigo recusado, mas o mesmo artigo foi aceito pelo Correio da Bahia. Nele, Caetano dizia que “O GGB (Grupo Gay da Bahia) é o orgulho da Bahia”.

Ter sido chamado por Daniela Mercury de “o nosso Harvey Milk” também o fez muito feliz.

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