Há quatro anos diagnosticado como soropositivo, dançarino superou a desolação inicial e redirecionou sua vida para mostrar que a aids não é uma sentença de morte

Pânico. O dançarino Rafael Bolacha , 29 anos, resume com essa palavra a sensação que sentiu a ouvir da boca de um médico a notícia de que havia contraído o vírus HIV, há quatro anos. “Fiquei em desespero nos cinco primeiros minutos. Principalmente, pelas referências brasileiras que eu tinha, que eram o Cazuza e o Renato Russo . Duas imagens que me remetiam instantemente à morte”, conta Rafael, lembrando os dois cantores brasileiros que morreram em decorrência da aids .

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Contudo, Rafael não ficou com essa sensação por muito tempo. Pelo contrário, logo o aspecto de sentença de morte da notícia foi dando lugar a um inesperado desejo de planejar o futuro, uma questão que não estava em sua agenda até então.

“Me acalmei e fui à praia. Chorei o que tinha para chorar e percebi que eu ia ter que me estruturar financeiramente para ter qualidade de vida”, lembra Rafael, que vive no Rio de Janeiro. O primeiro passo que ele tomou neste sentido foi retomar os estudos, voltando a frequentar as aulas do curso de Ciências Sociais, que ele havia trancado.

Um mês após o diagnóstico, Rafael já estava munido de todas as informações que encontrou sobre a doença. Ele sentiu então necessidade de compartilhar sua experiência, de mostrar uma perspectiva de vida menos negativa para outras pessoas na mesma situação que a dele. Assim surgiu o blog “Uma Vida Positiva”, que posteriormente daria origem a um livro de mesmo nome, lançado em 2012 pela editora Cidade Viva.

Me acalmei e fui à praia. Chorei o que tinha para chorar e percebi que eu ia ter que me estruturar financeiramente para ter qualidade de vida

A princípio, ele escrevia no blog sob um pseudônimo. “Era uma forma de exteriorizar meus sentimentos, mas eu assinava como Luan F. para não me expor”, esclarece Rafael, que tempos depois decidiu a assumir para os leitores a sua verdadeira identidade. “Coloquei meu nome e minha cara, para ajudar a tirar um pouco da má imagem em torno do assunto”.

Foi na mesma época do fim do anonimato no do blog e do lançamento do livro que a família de Rafael ficou sabendo da doença dele. “ Com certeza, contar para meus pais foi a parte mais difícil. Mas eu estava muito consciente, tinha informações e esclareci todas as dúvidas ”, admite o dançarino.

Rafael Bolacha relatou sua experiência como soropositivo no livro 'Uma Vida Positiva'
André Giorgi
Rafael Bolacha relatou sua experiência como soropositivo no livro 'Uma Vida Positiva'


Os amigos e as pessoas mais próximas do dançarino também foram informados que ele era HIV positivo. “Contei de várias formas, por telefone, pela internet e pessoalmente”, descreve Rafael. “Não tem jeito, nem hora certa. No caso dos relacionamentos afetivos, prefiro contar o quanto antes. Porque é um tema importante na minha vida e que rege também o meu trabalho”, acrescenta.

Segundo o dançarino, quem dá esse tipo de notícia deve estar pronto para todo o tipo de reação. “Você tem que responder duas perguntas: você está preparado para alguém não aceitar? Está preparado para ser ofendido ou julgado?”, aponta Rafael.

A não aceitação muitas vezes se manifesta como preconceito. “Tive problemas com médicos, não os infectologistas, mas com os outros que consultamos rotineiramente. Também tive dificuldades com os outros soropositivos, que não aceitavam a própria a doença e me atacavam”, relata o dançarino.

A culpa é sua. Independente da sua orientação sexual ou do seu parceiro, a culpa é sua de ter se relacionado sem preservativo. Quando você aceita isso a raiva passa.

"A culpa é sua"

Nesse processo de aprendizagem, Rafael entendeu que também é preciso assumir as consequências de uma conduta sexual imprudente. “A culpa é sua. Independente da sua orientação sexual ou do seu parceiro, a culpa é sua de ter se relacionado sem preservativo. Quando você aceita isso a raiva passa. A preocupação então é se cuidar e não contaminar ninguém”, analisa o dançarino, que hoje tem uma rigorosa rotina de cuidados com a saúde, necessária para quem é HIV positivo e que, consequentemente, tem o seu sistema imunológico fragilizado.

Apesar de ter aprendido a conviver (com a doença), o acumulo de detalhes diários torna o esforço grande

“Eu saio menos, pratico exercícios, me alimento melhor, durmo o necessário. Tenho a vida saudável que todos devem ter”, exemplifica Rafael, que toma seis tipos de medicamentos por dia. Essa rotina regrada faz o dançarino se resignar em habituar-se a uma doença que ainda não tem uma cura descoberta. “Apesar de ter aprendido a conviver, o acumulo de detalhes diários torna o esforço grande”.

Mesmo assim, ele não deixa de fazer planos para o futuro. Rafael prepara um espetáculo de dança sobre doenças crônicas e um filme autobiográfico. “Minha experiência tem se dividido em muitos pedaços. No caso do espetáculo, vou mostrar a questão da convivência com uma doença. O filme deve retratar o caminho percorrido até me tornar soropositivo”, conclui Rafael.

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