Em três casos diferentes, a história se repete quando meninas se apaixonam pelas melhores amigas heterossexuais. Para sexóloga, as pessoas estão tendendo a procurar o amor pela afinidade, não mais pelo sexo do outro

Toda menina sabe: amizade com aquela BFF tem afeto à queima-roupa: beijo, abraço, mãos dadas, mão no cabelo, dormir juntas, selinho para dizer oi ou tchau. A intimidade entre duas grandes amigas tem poucos limites. Uma repara no corpo da outra, se troca na frente da outra, vão juntas ao banheiro, dividem os segredos mais inconfessáveis. Mas e na hora que pinta o desejo?

O tema começou a ser explorado na série “Once Upon a Time” (exibido no Brasil pelo canal Sony), em que a personagem Mulan (Jamie Chung) se aproxima de Aurora (Sarah Bolger) e descobre estar nutrindo uma paixão pela amiga. Mas não pense que isso não acontece na vida real.

CURTA O IGAY NO FACEBOOK 

Com a jornalista Gabriela Olmos Duarte, 26, aconteceu exatamente isso. Depois de ter tido um relacionamento de quatro anos com um menino, se viu apaixonada por sua melhor amiga. Tudo começou com muita cumplicidade, que ela considera o principal fator para essa paixão ter existido.

A amizade evoluiu para um namoro

“Em março de 2008, fui morar nos Estados Unidos e a conheci. Ela também é brasileira e morava na mesma cidade que eu. Foi uma das minhas primeiras amigas quando cheguei lá. Ficamos grudadíssimas. Estudávamos na mesma sala, morávamos perto, fazíamos tudo juntas”, lembra Gabriela.

Numa certa altura, Gabriela tomou um “pé na bunda” do namorado e a amiga passou a ser seu porto seguro. “Começaram a rolar conversas sobre ficar com garotas, a curiosidade que ambas tínhamos, mas nada muito explícito. Foi aí que comecei a perceber que sentia atração por ela, mas não dava para entender se realmente rolava algo ou se tudo não se passava de um carinho enorme entre duas amigas que se amavam”, conta ela, que não tinha tido nenhuma experiência homossexual.

Começaram a rolar conversas sobre ficar com garotas, a curiosidade que ambas tínhamos. Foi aí que comecei a perceber que sentia atração por ela." (Gabriela Duarte)

O desejo estava latente, mas faltava coragem. O primeiro beijo acabou acontecendo após uma festa. “Depois de alguns pileques, estávamos alteradas e fiz uma declaração de amor bêbada”. No dia seguinte, à luz do dia, a timidez bateu. A amiga pediu para Gabriela desconsiderar a noite anterior e esquecer qualquer ideia além da amizade. “Eu até tentei, mas no fim de semana íamos para a balada e acabávamos dormindo juntas. Isso virou uma rotina por alguns meses, em viagens ou mesmo quando ficávamos na cidade, saíamos bastante e acabávamos ficando. E assim foi acontecendo até que um dia, sem perceber, virou namoro.”

A relação durou dois anos e hoje Gabriela comemora que elas ainda continuam amigas. “Não a vejo com frequência porque ela mora muito longe de mim, mas temos uma relação de cumplicidade enorme e linda. Acho que voltamos a ter a relação de amizade que tínhamos no começo. Isso é gratificante.”

Já sobre a descoberta de sua orientação sexual, Gabriela deixa a entender que foi um caminho sem volta. “Eu beijei caras ao longo do tempo, mas nunca mais me apaixonei por nenhum. Depois dela me envolvi com várias mulheres e tive um grande amor, que talvez tenha sido o ponto final dela dentro de mim. Ela também se envolveu com outras mulheres e nenhum cara.”

A amizade virou colorida

A operadora de caixa Thamires Alves, 21, também se viu caidinha por sua amiga e colega de trabalho heterossexual. “Eu tinha uma namorada, éramos amigas e ela até tinha curiosidade com relação às mulheres, mas nunca tinha feito nada. Meu relacionamento acabou e nós nos aproximamos. Nunca me declarei, mas demonstrava que gostava bastante dela”, conta. “Ela foi passar uma temporada em outra cidade e ficamos nos falando bastante por telefone até que um dia ela veio me visitar. Dormimos na mesma cama e rolou o primeiro beijo.”

Ela estava confusa demais, pensa muito na 'família perfeita'. Eu estou seguindo minha vida sem ela." (Thamires Alves)

Elas se relacionaram por um ano, mas a incerteza da amiga sobre namorar outra mulher levou ao fim do envolvimento. “Ela estava confusa demais, pensa muito na ‘família perfeita’. Eu estou seguindo minha vida sem ela. Nossa amizade continua a mesma. Acho que não vai ter volta porque ela diz que nunca tivemos algo sério, mas acho que pode rolar algum dia de a gente ficar.”

A amizade seguiu sendo uma amizade

A jornalista Mônica Bulgari, 25, também tem uma história para contar. Mônica se apaixonou por uma amiga com quem dividiu a casa por dois anos. “Nos conhecemos na faculdade, éramos da mesma classe e morávamos juntas em uma república, e por isso sempre tivemos uma relação de intimidade”.

Mônica falava abertamente com ela sobre seus amores e sua sexualidade, até que começou a ter uma percepção diferente do envolvimento. “Nunca havia passado nada pela minha cabeça. De repente comecei a desconfiar de que estava me apaixonando.”

Ela não mudou nada depois que eu me declarei. Precisei me distanciar um tempo para me recompor e reavaliar meus sentimentos." (Mônica Bulgari)

Apesar de saber que a amiga sempre fora bem resolvida quanto à sua orientação sexual, a jornalista se declarou de forma inusitada. “Estávamos falando sobre relacionamentos e achei que seria o momento. Era dolorosa a dúvida entre se ela estaria sentindo o mesmo que eu ou se eu estava me alimentando de uma ilusão”. Mesmo com receio de prejudicar uma bela amizade, Mônica arriscou. “Ela foi super fofa e sensível. Se mostrou muito surpresa e me disse: ‘Isso é natural’. Sim, é natural você se apaixonar por alguém com quem convive o dia todo e compartilha suas afinidades.”

A história de amor que Mônica imaginava não rolou, mas a amizade se manteve intacta. “Ela não mudou nada depois que eu me declarei. Precisei me distanciar um tempo para me recompor e reavaliar meus sentimentos”, explicou. “Me senti frágil, me culpei por ter sentido o que senti e arriscado uma amizade tão especial para mim. Sempre vou amá-la como uma amiga importante na minha vida, que me respeitou e estava lá para mim até quando a questão envolvia ela mesma.”

A afinidade em primeiro lugar

A sexóloga Regina Navarro Lins acredita que nos relacionamentos modernos exista uma tendência pela busca do amor não mais relacionada à orientação sexual. “A tendência é cada vez mais as pessoas escolherem os objetos de amor não pelo sexo, mas pelas afinidades. Acho que são sinais de que daqui a uns cinco ou 10 anos vão existir muito mais bissexuais do que hoje. Claro que isso é uma tendência, a maioria não funciona assim, mas quando muda a mentalidade, acontece”.

A doutora em psicologia pela PUC-SP Elisa Maria de Ulhôa Cintra diz que o caminho é mais curto entre duas meninas, já que o afeto entre as mulheres é da natureza feminina, vem desde a infância. E que a primeira relação da menina é com sua mãe, o que de certa forma a prepara para ter intimidade com outras mulheres. “Mulheres são mais receptivas, têm essa efusão amorosa, sem uma barreira tão nítida. Nos três primeiros anos de vida, todas as crianças são ligadas à mãe, as meninas são homossexuais e os homens heterossexuais. Só depois dos três anos é que a sexualidade vai sendo definida”, esclarece ela. “Os meninos heteros têm muito pavor do contato físico com outros meninos. Homens são mais repressores, se afastam com medo da homossexualidade latente, conseguem manter uma distância. As mulheres são mais afetivas por natureza.”

Todos queremos ser reconhecidos, amados, receber carinho, atenção, então você acaba se ligando em quem te traz isso." (Regina Navarro Lins)

Elisa também tem uma teoria sobre como a intimidade pode evoluir para a sexualidade. “Cria-se um elo entre duas meninas que pode passar pela sexualidade. Talvez o que elas estejam buscando seja uma compensação para uma falha em relações anteriores. Todos queremos ser reconhecidos, amados, receber carinho, atenção, então você acaba se ligando em quem te traz isso.”

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.