“Não queríamos um público que fosse só para ver duas mulheres se pegando”

Protagonistas da peça “Tem Alguém Que Nos Odeia”, Ana Paula Grande e Bruna Anaute posam para o iGay e falam do desafio de interpretar um casal de lésbicas que sofre agressões e homofobia

Iran Giusti , do iG São Paulo |

Ana Paula Grande e Bruna Anaute, as protagonistas da peça 'Tem Alguém Que Nos Odeia'. Foto: André GiorgiAna Paula se inspirou na história dos amigos gays que foram agredidos para dar vida a sua personagem Maria. Foto: André GiorgiBruna Ataude: 'Parece que se você é gay, você não tem o direito de existir'. Foto: André GiorgiAna Paula é também, ao lado de Bruna, produtora da peça. Foto: André Giorgi'Por não sermos gays, eu tinha medo de algum gay falar que não estávamos fazendo algo verdadeiro'. Foto: André GiorgiA decadência de uma relação lésbica e homofobia são os temas de 'Tem Alguém Que Nos Odeia'. Foto: André Giorgi'Dependendo da forma que ela respira eu sei como o corpo dela vai reagir, a intimidade da vida pessoal foi muito importante no palco', conta Bruna. Foto: André Giorgi

Quem for ao Teatro Augusta, em São Paulo, assistir à peça “Tem Alguém Que Nos Odeia”, pode ficar com a sensação que as atrizes no palco, Ana Paula Grande e Bruna Anaute, formam um casal na vida real, tal o grau de intimidade das duas em cena. No ensaio que as duas fizeram para as lentes do iGay, o clima de cumplicidade foi o mesmo.

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Mas a parceira afetiva delas se restringe ao palco. Heterossexuais, as atrizes ensaiaram exaustivamente para dar veracidade as suas personagens lésbicas. “Por não sermos gays, eu tinha medo de algum gay falar que não estávamos fazendo algo verdadeiro, que não sabíamos mostrar aquelas situações. O receio era sermos acusadas de ser ingênuas”, admite Bruna.

A intimidade da dupla em cena foi reforçada por uma circunstância que fez as duas passarem mais tempo juntas antes da estreia do espetáculo, que aconteceu no último mês de julho. “Na época dos ensaios, me separei do meu marido e fui morar com a Bruna. Minha família jurava que eu iria me assumir lésbica”, se diverte Ana Paula, ao lembrar a situação.

Essa cumplicidade de colegas de profissão (e amigas) foi fundamental para o bom trabalho que elas apresentam no palco. “Dependendo da forma como ela respira, eu sei como o corpo dela vai reagir. A intimidade da vida pessoal foi muito importante no palco porque a gente começa a peça a partir de uma relação em desgaste, era preciso apresentar essa bagagem delas sem retratá-la ao pé da letra”, observa Bruna.

Na trama, Maria (Ana Paula) e Cate (Bruna) se mudam para um grande centro urbano não identificado para começar uma nova vida, ao mesmo tempo em que tentam enfrentar o desgaste de uma longa relação. Na segunda parte da peça, o casal passa a sofrer ataques homofóbicos.

“Meu melhor amigo já sofreu agressões, ele foi à estreia e ficou sem palavras quando a peça acabou. Antes, ele estava descrente, achava que não conseguiríamos ir tão fundo. Quando me encontrou, ele deu um abraço e disse: ‘você me representou, você me entendeu’”, conta Ana, se emocionando ao recordar a situação.

André Giorgi
Ana Paula Grande e Bruna Anaute, protagonistas de 'Tem Alguém Que Nos Odeia',


A despeito da temática homoafetiva do texto, a dupla afirma que fazer um espetáculo panfletário da causa LGBT nunca foi o objetivo delas. Aliás, a temática gay não estava nem cabeça das atrizes quando elas pediram uma peça para a autora Michelle Ferreira. A ideia inicial era falar de amor, mas não necessariamente o de um casal.

Quando recebemos o texto, olhei para o meu entorno e passei a ouvir todas as histórias reais, acabei constando algo assustador: a grande maioria desses conhecidos (gays) já tinha sido agredida (Ana Paula Grande)

“Como a proposta era ter duas atrizes em cena, a autora deu a solução dramática de interpretarmos um casal de lésbicas”, relata Ana Paula, acrescentando a informação de que 90% dos seus amigos são gays, que eles inclusive forneceram subsídios para o trabalho dela. “Quando recebemos o texto, olhei para o meu entorno e passei a ouvir todas as histórias reais, acabei constando algo assustador: a grande maioria desses conhecidos já tinha sido agredida”.

Bruna chegou a uma conclusão ainda mais aterradora. “Parece que se você é gay, você não tem o direito de existir”, pondera a atriz, que no entanto, ficou esperançosa de uma melhora nesta situação com o resultado do espetáculo. “ Foi muito bonito ver nesses meses pessoas que têm uma certa homofobia, mesmo que não violenta, se sensibilizando com a situação retratada na peça”.

Sem beijo, sem estereótipos

Curiosamente, a atrizes interpretam um casal gay com grande veracidade sem se beijar em cena. “Não ter beijo foi proposital, não queríamos um público que fosse só pra ver duas mulheres se pegando, a história não é sobre isso”, argumenta Ana. “O mais importante ali é ver a decadência da relação e a violência que elas sofrem”, completa Bruna.

A preocupação constante na construção da trama esteve também no gestual e também no figurino assinado pela própria dupla, que preferiu fugir dos estereótipos das lésbicas masculinizadas, numa tentativa de ressaltar a diversidade de perfis das mulheres homossexuais.

“Parece que se você é gay, você não tem o direito de existir” (Bruna Anaute)

“Não existia a necessidade de ter uma lésbica machona. Esse tipo de definição não era interessante para a gente, não era importante falar sobre papeis, mas sobre o amor. Que nesse caso é entre duas mulheres”, defende Bruna.

“Tem Alguém Que Nos Odeia” foi montada e está há cinco meses em cartaz em São Paulo graças ao dinheiro arrecadado pela plataforma Catarse, pela qual o público doa verba para realização de projetos sociais ou culturais. Infelizmente, as empresas procuradas não aceitaram patrocinar a peça.

Com apenas mais duas apresentações em São Paulo, nas próximas quarta (27) e quinta-feira (28), as atrizes desejam agora levar a peça numa turnê pelo Brasil, mas dependem de empresas que patrocinem a viagem. Nós do iGay torcemos para que esse desejo se realize o mais rápido possível.

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Serviço: “Tem Alguém Que Nos Odeia”

Quarta (27) e Quinta-feira (28), às 21h

Teatro Augusta - Espaço Experimental

Rua Augusta, 943 – São Paulo

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