Diretor do longa "Tatuagem", Hilton Lacerda conversou com o iGay sobre seu processo de criação, as destacadas cenas de sexo gay de seu filme e como construiu uma das obras mais premiadas do ano

O diretor e roteirista Hilton Lacerda
André Giorgi
O diretor e roteirista Hilton Lacerda

Hilton Lacerda   talvez seja o maior representante do chamado - e respeitado - cinema pernambucano. Responsável pelos roteiros dos aclamados longas “Baile Perfumado” (1997), “Amarelo Manga” (2002),”Árido Movie” (2004) e “Baixio das Bestas” (2006), o cineasta fez sua primeira incursão na direção no filme “Cartola – Música Para os Olhos”, de 2007. Este ano, assinando o roteiro e a direção de “Tatuagem”, que estreou no circuito comercial na última sexta- feira (15), ele comprovou que é um dos grandes nomes da sétima arte brasileira.

Em entrevista ao iGay, o cineasta falou sobre o retrocesso em questões sexuais, cenas de sexo gay, indústria do cinema e processo de produção criativa.

iG:  Como surgiu o "Tatuagem"?
Hilton Lacerda:   É preciso passar por um processo muito longo para chegar a um denominador comum, e isso aconteceu com o "Tatuagem". O filme foi uma colagem baseada nessa ideia de um olhar sobre uma determinada época, sobre a construção do futuro, a construção da liberdade e o próprio local do amor.
Eu já tinha visto muitas exposições e em uma conversa com o João Silvério Trevisan (escritor, cineasta e militante LGBT), contei que que estava pensando em fazer uma adaptação do livro "Orgia", do Tulio Carela (publicado em 1968), e começamos a falar sobre a vivência do grupo de teatro Versiones, que existiu entre 72 e 81. Nesse momento todas as peças se encaixaram.

iG: Sobre o que é "Tatuagem" e quanto de você existe no filme?
Hilton Lacerda:   É sobre a periferia, a construção da arte, uma arte não permeada pela arte acadêmica e a própria construção afetiva. O Tuca (filho do protagonista, Irandhir Santos) tem 13 anos, exatamente a minha idade em 78 (quando se passa o filme). Nessa época a minha impressão, e de todo mundo, era de que algumas questões não seriam mais questões em pouco tempo, o que não se mostrou verdade, só ficou tudo mais conservador.

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iG:  Ser gay influenciou de alguma forma a execução do filme?
Hilton Lacerda:   Ser gay reflete no meu trabalho porque quando se está em uma posição em que você precisa refletir o mundo pra saber as rédeas que você vai tomar, isso acaba fazendo parte. Principalmente vindo de uma geração em que a afirmação sexual veio forte e esbarrou na Aids, onde o epicentro era o universo gay, onde se espalhou a culpa. Eu não crio um discurso gay, mas ser gay me ajuda a articular algumas coisas.

iG:  Em algum momento teve alguma preocupação em o filme se considerado "gay demais"?
Hilton Lacerda:   Um jornalista me perguntou porque eu estava trabalhando com um tema polêmico. Polêmico pra mim é alguém achar que dois homens fazendo sexo é polêmico. O que aconteceu com as pessoas e o mundo? Tudo que está no filme e remete ao futuro, até o filme feito em volta, é para discutir o presente. Qual o papel da gente e o papel do povo, esse povo que está tentando tirar a roupa e vem alguém e manda vestir?

IG:  O filme tem duas cenas de sexo gay, existiu algum receio em apresentar essas cenas?
Hilton Lacerda:   Nunca esteve em pauta ter ou não cena de sexo gay, a questão era como a gente queria que elas fossem. 
Por mais que as pessoas tentem vender o choque do sexo gay, eu penso que, mesmo as pessoas não tendo o costume de ver e ter esse constrangimento do corpo alheio, a própria cena tem um poder de catarse inverso. Ela quase que acalma, é uma isca narrativa, a gente conquista o olhar do espectador. Não é a falta de rotina que vai quebrar, é fazer com delicadeza que vai prender. Eu gosto muito das cenas pela entrega que os atores têm.

iG: E a nudez?
Hilton Lacerda:  A questão da afetividade está presente o tempo todo, o corpo estava presente, na escolha dos atores falávamos que se alguém tivesse pudor com o corpo nem precisa continuar os testes, não que a gente fosse usar para sacanagem, mas o corpo está ali o tempo todo, nudez não era uma questão, fazia parte, pra esse filme foi importante.

iG:  Existiu algum tipo de dificuldade em conseguir financiamento?
Hilton Lacerda:   Em um dos prêmios federais vieram as pontuações e um dos integrantes da banca perguntou se eu achava que “esse tipo de filme” teria público. Respondi "Que tipo?", e ele falou “Um filme gay”. Expliquei que as paradas gays reúnem milhões de pessoas, público tem. Se elas têm um olhar para esse filme, é outra história. Não acredito em filme de gênero, gay pra mim não é mercado, posso fazer um projeto de filme para o público gay, mas acho feio. O que teve de conquista teve de separatismo.

iG:  E como é ser um dos maiores expoentes do cinema brasileiro na atualidade?
Hilton Lacerda:   Fico bem surpreso, estou indo para o meu 15º filme como roteirista. Existe essa geração pós Embrafilme, de que faço parte, que fez cinema em Pernambuco na década de 90. A gente trouxe um frescor narrativo, mas a geração depois da gente nos deve muito pouco. Na verdade eles só nos devem o fato da gente não ter parado.

iG:  E o que tem de tão especial nesse cinema pernambucano?
Hilton Lacerda  : Olha, Pernambuco, Ceará e Minas têm uma forma diferente de fazer cinema, a gente conseguiu mecanizar a forma de produção, não pode ser tão caro, mas tem que ter qualidade. Atores topam participar ganhando muito pouco porque é bom. Como falei existe um frescor narrativo.

Confira cenas do filme:


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