Profissionais afirmam encontrar dificuldades para conseguir patrocínio público ou de empresas privadas para projetos culturais com temática LGBT e contam com a ajuda do público para viabilizar atividades

Peça
Divulgação/Pedro Karg
Peça "Tem Alguém que Nos Odeia" optou pelo financiamento coletivo diante da recusa das empresas

Em cartaz no Teatro Augusta, em São Paulo, a peça “Tem Alguém que Nos Odeia” tinha tudo para conseguir patrocínio: a aprovação da Lei Rouanet (incentivo cultural que permite que captadores busquem recursos em empresas privadas), um texto finalista no Prêmio Luso-brasileiro de Dramaturgia José da Silva e duas belas e talentosas atrizes dispostas a realizar a montagem: Ana Paula Grande  e Bruna Anauate  . O enredo, sobre uma relação lésbica e homofobia, afastou os potenciais patrocinadores.

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“Conseguimos a aprovação da lei e quando íamos a reuniões com empresas que estariam dispostas a financiar a peça, desistiam por conta da temática gay e por tratarmos de homofobia. Existe um medo muito grande das marcas de se aliar a projetos assim e perder um público mais conservador que tem dinheiro”, revela Ana Paula.

Recém chegada da Europa e dos EUA, Ana Paula resolveu apostar em um modelo comum fora do país: o crowdfunding. “Vi diversos panfletos de espetáculos com uma lista interminável de nomes. Quando perguntei do que se tratava, me explicaram que eram financiadores que doavam dinheiro pela internet para viabilizar as montagens”, explica a atriz e produtora.

Existe um medo muito grande das empresas de perder um público mais conservador que tem dinheiro (Ana Paula Grande)

Depois de dois anos tentando financiamento privado, a atriz decidiu partir para esse caminho alternativo. Escolheu uma plataforma brasileira para buscar verba do público, o site Catarse, voltado para projetos culturais e sociais. Ao conseguir arrecadar o valor total necessário para a colocar a montagem de pé, a peça entrou em cartaz - e tem sido consagrada pela crítica especializada.

Quem também escolheu partir para buscar financiadores online foi o quadrinista Mario César Oliveira . Mesmo tendo publicado três edições de uma série multitemática chamada “EntreQuadros”, bancadas ou por ele ou pela editora Balão Editorial, se viu sem patrocínio quando enveredou para a temática LGBT.

“Mantenho a ‘EntreQuadros’ desde 2009 e sabia que uma hora ou outra eu tocaria em temas LGBT, que fazem parte do universo no qual estou inserido. Tudo o que vivencio influencia meu trabalho como autor. A primeira história deste livro que produzi, o ‘Ciranda da Solidão’, foi sobre como conheci meu namorado. Fiz como presente de aniversário para ele”, contou.

Mario chegou a inscrever o projeto no edital do ProAC (Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo), mas não foi selecionado. Pensou em tentar alguns outros programas, mas a demora para aprovação e a temática o fizeram escolher o crowdfunding. “Me pareceu uma solução mais imediata e menos complicada. Não dei muita sorte com editais, mas isso nunca me parou ou me impediu de ser publicado”, relembra.

O receio das empresas de vincular sua imagem a projetos LGBT também é citado por Mario. “Elas só perdem um pouco do medo se houver algum famoso envolvido, mas até um cineasta já bem estabelecido como o Bruno Barreto disse ter tido dificuldade para financiar o filme ‘Flores Raras’. Infelizmente esse assunto ainda é tabu no Brasil”, salientou.

Crowdfunding entre amigos, conhecidos e desconhecidos

Para fazer arte é preciso empenho, prova disso é o estudante de cinema Gustavo Freitas  , 24. Para filmar seu documentário “Andarilhas”, sobre a rotina de duas drag queens fora de seus ambientes de trabalho, casas noturnas e festas de formatura. Selecionado por um edital universitário de apoio cultural do Canal Futura, que viabiliza curtas de baixo orçamento, ele e o estudante Vinícius Santana deram início ao projeto.

O quadrinista Luis Mario César perdeu patrocínio ao abordar sua própria história em HQ
Arquivo pessoal
O quadrinista Luis Mario César perdeu patrocínio ao abordar sua própria história em HQ

Com o dinheiro inicial, Gustavo e sua equipe conseguiram fazer a pré-produção do projeto, mas na hora das filmagens, contaram com talento e sorte para conseguir apoiadores. “O que permitiu a execução foram as parcerias: dois restaurantes, uma academia de dança e ajuda dos amigos”, relatou Gustavo.

Na hora da finalização foi preciso de mais dinheiro e o estudante recorreu então aos amigos desconhecidos. “Decidimos trabalhar com o Catarse, porque seria mais rápido para arrecadar o dinheiro e divulgar o projeto, já que a proposta do site tem tudo a ver com o objetivo do documentário. Assim, o público já fica conhecendo a proposta e se envolve com o tema”.

O projeto tem cerca de um mês para conseguir arrecadar  os R$ 4.000,00 necessários para finalizar o documentário e já conseguiu mais de um quarto do valor. Caso não bata a meta, todo o valor já doado é devolvido.

Captação esbarra em polêmicas, mas é caminho possível

As impressões negativas de quem corre atrás de apoio para seus projetos LGBT não são apenas suposições. Andreia Porto  , produtora e gestora cultural, identifica esse problema quando o assunto é patrocínio por meio de leis de incentivo e empresas.

“Infelizmente e absurdamente. Questões polêmicas como sexualidade, preconceito, política, etc, ainda são evitadas pelas empresas, pois elas temem atrelar suas marcas a qualquer tipo de posicionamento sobre assuntos ainda tão delicados e de abordagem tão objetiva. Tais temáticas exigem uma opinião direta: ou apoia ou recrimina”, explanou.

Apesar de existir uma certa barreira para as empresas apoiarem os projetos que falam de temas LGBT, alguns editais são criados especificamente para isso. Um exemplo é o cineasta Lufe Steffen ,  que conseguiu apoio para dois projetos através de leis de incentivo.

Lufe Steffen: Leis de incentivo do governo dedicadas a projetos LGBT viabilizaram documentários
Arquivo pessoal
Lufe Steffen: Leis de incentivo do governo dedicadas a projetos LGBT viabilizaram documentários

“O primeiro filme, ‘A Volta da Pauliceia Desvairada’, foi através de um edital do Proac para projetos ligados à temática LGBT. Fui um dos ganhadores desse edital em 2011, e aí no início de 2012 recebi os recursos e produzi o filme. O segundo, ‘São Paulo em Hi-Fi’, foi apoiado diretamente pela Secretaria de Cultura do Governo do Estado, através de uma coordenadoria ligada às questões LGBT. E aí o processo foi o mesmo, recebi o apoio no início deste ano e o filme acaba de ficar pronto”, contou.

Infelizmente e absurdamente. Questões polêmicas como sexualidade, preconceito, política, etc, ainda são evitadas pelas empresas, pois elas temem atrelar suas marcas a qualquer tipo de posicionamento sobre assuntos ainda tão delicados e de abordagem tão objetiva (Andreia Porto)

Mesmo com as barreiras apresentadas pelos profissionais, os programas governamentais de incentivo à cultura estão abertos para todos e qualquer pessoa pode inscrever o seu projeto em um edital, como descreve Andreia.

“Existem dois mecanismos: as leis de incentivos fiscais (Federal - IRRF, Estadual - ICMS e/ou Municipal – ISS), nas quais, quando o projeto é aprovado, o produtor estará autorizado a captar os recursos. Nesse caso, o patrocinador vai obter o abatimento do valor investido no projeto em seu imposto (total ou parcial)", explica ela. "Já nos editais públicos, um valor pré-definido é divido entre os projetos selecionados e não há necessidade de um patrocinador, uma vez que o recurso é oriundo dos fundos de apoio à cultura. Para cada tipo de fomento, existe uma comissão de análise formada por membros da cultura. Esses membros são geralmente da parte da instituição que recebe o projeto e também profissionais da arte que se inscrevem para fazer parte.”


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