Em entrevista ao iGay, Irandhir Santos, Jesuita Barbosa e Rodrigo Garcia, protagonistas do premiado longa que estréia na próxima sexta-feira (15), falaram sobre diversidade sexual, política e processo criativo

Em “Tatuagem”, que chega aos cinemas nesta sexta-feira (15), Irandhir Santos  dá vida a Clécio, o dono da companhia teatral pernambucana “Chão de Estrelas”, que promove espetáculos burlescos e políticos durante a obscura, e ao mesmo tempo desbundada, década de 70. Jesuita Barbosa   interpreta o militar Fininha, que vive entre a rigidez do quartel e sua homossexualidade, e passa a se relacionar com o líder teatral. A trama é completada por Rodrigo Garcia , na pele de Paulete, um jovem ator desbocado e diva da companhia.

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O iGay   reuniu, em São Paulo, o trio de atores que vem sendo premiado por todos os festivais por que passa. Irandhir conquistou melhor ator no Festival de Cinema de Gramado e no Festival de Cinema do Rio de Janeiro, em que Rodrigo também foi premiado, como melhor ator coadjuvante. O encontro ao vivo com os protagonistas de "Tatuagem" revelou três figuras elegantes, impactantes e com muito a dizer.

Assim como no filme, quem lidera a entrevista é Irandhir, que aos 35 anos se firmou como um dos maiores nomes do cinema nacional. Além de protagonizar “Tatuagem”, ele integra o elenco de “O Som ao Redor” (2012), selecionado para representar o Brasil na corrida pelo Oscar de filme estrangeiro, e dos longas “A Febre do Rato” (2011) e o blockbuster “Tropa de Elite 2” (2010).

“O que me deixou mais feliz (em "Tatuagem") foi abordar essa diversidade, mas me deixou também abismado. O filme se passa na década de 70, onde se levantavam várias bandeiras, e hoje, em 2013, nada mudou. A não mudança que deveria te ocorrido e não ocorreu me deixa triste”, diz o ator, que acha que parte da culpa é de alguns políticos. “Temos uma pessoa tão escandalosa e estúpida na presidência da Comissão dos Direitos Humanos, esse tipo de coisa é inadmissível”, se revolta ele, citando o deputado Marco Feliciano   (PSC-SP).

Sobre as filmagens do longa, revela: “Nós tivemos um mês para nos preparar, tivemos tempo para ensaiar, para nos atrever. Contracenar com o Jesuita e com o Rodrigo foi a chave para dar tudo certo. Das cenas de teatro até as mais íntimas, a nossa relação reverberava e passava a experiência dessa trinca que formamos. É muito bom quando se encontra em outro ator essa intimidade que te deixa à vontade. Achei neles o equilíbrio do meu trabalho, foi um impulso para que tudo acontecesse”, diz Irandhir.

Além da intimidade com os companheiros de cena, a direção de Hilton Lacerda   e a memória afetiva fizeram do filme algo especial. “Um passado muito importante da minha cidade foi resgatado, essa memória emocional contagiou o projeto, deu uma cara especial e motivou todo mundo. O cinema do Recife escava sua raiz a tal ponto que o torna universal. Esse é o segredo da coisa.”


“Eu não me considero uma promessa, as matérias sempre dizem isso, mas não fiz promessa para ninguém. O que eu quero é que as pessoas vejam meu trabalho, gostem e recomendem (Jesuita Barbosa)

“Não prometi nada para ninguém”

Com 22 anos de idade e apontado como grande aposta do cinema nacional, Jesuita participou também do longa “Serra Pelada”, que está em cartaz nas salas de cinema do pais. Com esse currículo respeitável, o ator se mostra tímido. “Eu não me considero uma promessa, sempre nas matérias sai isso, mas não fiz promessa para ninguém. O que eu quero é que as pessoas vejam meu trabalho, gostem e recomendem, porque é assim que as coisas funcionam, mas fico muito feliz por acreditarem em mim”, afirma ele.

Dando vida a Fininho, o ator conta que ao ler o roteiro pela primeira vez percebeu que teria um desafio: dizer sem falar. “O silêncio que se vê no filme está no roteiro, tem o lance dele ser um menino do interior, algo que eu também sou, então sei como é: a gente chega calado, contemplando, tentando entender. Tenho feito isso na minha vida”, filosofa Jesuita.

“Me interesso muito mais por personagens de excessos”

Intérprete do desbocado Paulete, Rodrigo também encontrou um par perfeito em seu personagem. Ele é o oposto de Jesuita, falante e expansivo. Mas também teve suas inseguranças ao filmar. Tinha receio de que Paulete fosse mal interpretado. “Tinha medo de Paulete ser arrogante demais. Foi preciso muito cuidado para juntar todas as referências que recebi durante o processo de criação até chegar ao resultado final. No fim das contas, todo mundo gostava muito dele”, conta ele, se referindo ao personagem como se falasse de um amigo.

O ator também integra o elenco do filme “Amor, Plástico e Barulho”, ainda sem data de lançamento, onde interpreta um coreógrafo de música brega, mostrando sua predisposição por papéis intensos. “Me interesso muito mais por personagens de excessos, claro que como ator gosto também dos mais contidos, mas fazer os excessivos dá mais prazer, é mais intenso”, explica.

Jesuita, Rodrigo, Hilton e Irandhir
André Giorgi
Jesuita, Rodrigo, Hilton e Irandhir

“A afetividade entre dois homens é o que mais assusta”

Medo de ficar marcados por interpretar homossexuais os atores dizem não ter. Pelo contrário: em vez de se importar com isso, se mostram satisfeitos por integrar o projeto e interpretar personagens tão complexos. “Tinha a questão do Clecio ser apaixonado por outro rapaz, mas era só um fator entre tantos. Na feitura do filme, percebi o quanto essa relação seria especial. Não veio medo nenhum, pelo contrário, veio orgulho, e percebi que era uma vontade minha interpretar alguém que tem esse amor todo”, relata Irandhir.

Muita gente não se permite ver as coisas, as pessoas podem escolher ser preconceituosas ou não, mas muitas vezes o medo as leva para a escolha errada (Rodrigo Garcia)

O ator complementa ainda que a polêmica se dá não pela relação gay, mas pelo amor posto em cena. “A afetividade entre dois homens é o que mais assusta”, conclui.

Jesuita conta que tem mais familiaridade com o universo LGBT, e portanto não se incomodou. “Eu venho de um grupo de teatro que tem travestis, transformistas, sempre foi algo bem visto por minha mãe. Fiquei ainda mais motivado por um papel que poderia ser considerado polêmico e que envolvesse essas questões de liberdade”.

Rodrigo também endossa o coro pró diversidade: “Muita gente não se permite ver as coisas, as pessoas podem escolher ser preconceituosas ou não. Muitas vezes o medo as leva para a escolha errada”, opina.

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