O ousado triângulo amoroso vivido por Thiago Fragoso, Danielle Winits e Marcelo Antony em “Amor à Vida” abre uma discussão pouco explorada em relacionamentos homoafetivos

Walcyr Carrasco  decidiu ousar em “Amor à Vida” ao criar um triângulo amoroso envolvendo Niko ( Thiago Fragoso  ), Eron ( Marcelo Antony  )  e Amarilys ( Danielle Winits  ). Na trama, os gays Niko e Eron são bem casados e amigos da médica, que se oferece para atuar como barriga solidária – prática que significa emprestar o útero para gerar um bebê para quem não pode ter filhos de forma natural. Na trama, Eron acaba se envolvendo com Amarilys e seu relacionamento com Niko entra em crise.

A história causou desconforto na comunidade gay por expor um lado pouco explorado dos relacionamentos homoafetivos, mas se engana quem pensa que isso só acontece na ficção. O historiador Edson de Barros  , de 36 anos, viu sua vida mudar ao descobrir que seu namorado estava se relacionando com uma mulher. “Quando nos conhecemos eu tinha 26 anos, ele 19. Éramos apenas amigos, e até ali ele era supostamente hétero, só tinha ficado com mulheres. Fomos nos conhecendo melhor, ele foi se abrindo à própria curiosidade e ao seu interesse por mim.”

Dois homens, uma mulher e um bebê

O que começou como amizade passou a envolver carinho, amor, sexo - e virou um relacionamento estável. Depois de dois anos de namoro, Edson soube da primeira “recaída” do namorado. “Era fim de ano e saímos separados, cada um com seus amigos. No outro dia, uma amiga que o vira com uma mulher me perguntou se havíamos rompido. Fiquei em choque, era a primeira vez que namorava, a primeira vez que encontrava reciprocidade no amor, e também a primeira desilusão”.

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Após muita conversa, o historiador decidiu passar por cima da situação, já que havia sido apenas um deslize. Mas acabou sendo pego de surpresa novamente. “Uma transa fora do relacionamento não ia me fazer desistir do que estávamos vivendo. Mas acabou acontecendo de novo, de forma muito pior, pois a menina engravidou. Minha birra passou a ser não só pela traição, mas também por ele não ter usado camisinha, me colocando em risco.”

Os dois ainda apostaram no relacionamento, até Edson descobrir que o namorado mantinha um relacionamento paralelo com a mãe do filho dele. “Durante a gravidez eu já não acreditava mais no nosso compromisso, mas ele não queria deixar de namorar. Depois do nascimento do bebê ele resolveu que era melhor tentar ficar com a mãe do seu filho. Sofri como se tivesse sido um baque prolongado”.

Uma transa fora do relacionamento não ia me fazer desistir do que estávamos vivendo. Mas acabou acontecendo de novo, de forma muito pior, pois a menina engravidou (Edson de Barros)

Dez anos após viver essa situação complicada em sua vida, Edson não consegue ver diferença entre ser trocado por um homem ou por uma mulher. “O que realmente doeu foi o fato da pessoa não querer mais estar comigo, de estar com outra pessoa, independente do gênero. Outra coisa que me travava era o fato de ela não saber de mim. Não achava justo, e foi aí que o rompimento começou a acontecer. Ele não queria escolher algo honesto, declarado. Por fim, decidui pela mulher e a filha.”

Um aluno, um professor, uma professora - e muita pressão da família

O chef de cozinha Ricardo   Almeida  , de 22 anos, também foi trocado por uma colega de trabalho de seu namorado, que era seu professor. Na época, o jovem era adolescente e chegou a ter problemas nos estudos por conta da decepção amorosa.

“Nossa diferença de idade era de 8 anos. Ele vivia me jogando indiretas e um dia acabamos saindo. Após algumas semanas, assumimos o relacionamento para a família e amigos. Namoramos por quase dois anos. Dois dias depois da nossa relação terminar, ele assumiu um relacionamento com uma professora da escola que era bem próxima de nós dois. Sofri muito, cheguei a largar meus estudos. Dois meses depois decidi parar de me lamentar, me matriculei em outra escola e segui minha vida”.

Ricardo diz que tudo aconteceu por pressão da família de seu ex-namorado, e que ele se arrependeu de ter acabado o namoro daquela forma. “A família nunca aceitou a homossexualidade dele. São todos evangélicos, a convivência estava um inferno, ele resolveu fazer a vontade dos pais. Hoje ele se lamenta quando me encontra, diz que me ama, que fez a pior burrada da vida dele ao me trocar. Se for da minha vontade, ele larga tudo e volta para mim.”

"Acho que seria pior se fosse por outra mulher"

Nunca aconteceu de o produtor e DJ Wagner Almeida  , 23 anos, homossexual assumido, ser trocado por uma mulher. Em um relacionamento sério há oito meses, ele admite que no passado foi traído por um ex com outro homem, mas não faz ideia de como reagiria caso descobrisse uma traição do namorado com uma mulher. “É muito difícil me colocar numa situação assim, não sei o que pensar”, considera ele. “Se ele me traísse e depois me trocasse por outro homem, eu precisaria de um tempo para digerir o período que vivi de mentiras. Mas acho que seria pior se fosse por uma mulher. Isso acontece com quem não sabe o que quer e consegue viver sustentando uma mentira para si mesmo, o que eu acho que deve ser bem difícil até para a própria pessoa”.

O estudante Vinícius Valle, de 22 anos, acredita que o interesse por uma mulher surgir durante o relacionamento com um homem pode acontecer principalmente com quem é bissexual. “Quando um homem gay tem atração por uma mulher, é porque ele ainda não está seguro da sua sexualidade. Tem gente que não acredita que existam bissexuais, mas eu acho sim que uma pessoa pode sentir atração pelos dois sexos. A situação da novela pode acontecer por isso. Tenho pessoas próximas a mim que ficam com homens e mulheres.”

É mais difícil por causa da censura na sociedade, mas um heterossexual também pode se questionar ao longo da vida, ter vontade de descobrir outros prazeres. As identidades não são fixas, nada está escrito em mármore (Klecius Borges)

Especialistas têm opiniões divergentes

Para o psicólogo Klecius Borges  , especializado em Terapia Afirmativa para Gays, Lésbicas, Bissexuais e seus Familiares, a situação é mais comum do que todo mundo imagina. “Tudo é possível, porque as identidades não são fixas. Um homossexual pode passar a vida toda afirmando isso, como pode mudar e olhar para o outro lado por causa de uma nova situação.Em ‘Amor à Vida’, o personagem é bissexual, porém estava num relacionamento homossexual. A situação ali de querer ser pai, o envolvimento com a outra personagem, ocasionou tudo”, explica ele. “É mais difícil por causa da censura na sociedade, mas um heterossexual também pode se questionar ao longo da vida, ter vontade de descobrir outros prazeres. As identidades não são fixas, nada está escrito em mármore.”

A psicóloga comportamental Maria Lourdes Sola   pensa de maneira diferente. Para ela, a pessoa muda o comportamento, mas o sentimento continua o mesmo. “A novela é bem fantasiosa. Uma vez homossexual, sempre homossexual, isso é determinado na primeira divisão celular pela carga hormonal da mãe. Porém, pode haver mudança de comportamento por conta da forma como você será beneficiado, seja por afeto ou até condição financeira. O comportamento pode mudar, mas a pessoa sempre vai saber o que sente e do que gosta mais.”

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