Com fórmula simples, diretor Hilton Lacerda faz um filme que envolve, entretém e faz pensar

Tatuagem é um filme simples e ao mesmo tempo complicado. Simples porque não é nenhum “Serra Pelada”, não tem grandes reconstituições de cenário, elenco numeroso, cenas grandiosas. Fala das questões humanas mais debatidas do universo: liberdade, amor, sexo, ciúme, desejo, inspiração – e como expressar tudo isso.

Complicado porque baseado em pouco mais do que o essencial – uma boa história, bons atores, o desbunde dos anos 70, época sempre boa de rever no cinema, e personagens carismáticos –, ele te envolve, te seduz, te entretém e faz pensar: por que o cinema brasileiro não faz mais filmes assim?

O centro dos acontecimentos é o Chão de Estrelas, casa noturna decadente no Recife onde um bando de atores-cantores-artistas apresenta um show de música e deboche de que eles mesmos cuidam de tudo. Eles são uma espécie de Dzi Croquettes nordestino.

Clécio e Paulete, dois vértices do triângulo de 'Tatuagem'
Divulgação
Clécio e Paulete, dois vértices do triângulo de 'Tatuagem'

E tem a história de amor entre Fininha (Jesuíta Barbosa) e Clécio (Irandhir Santos), que são respectivamente um soldado do quartel, que convive com a disciplina militar e com o radicalismo religioso de sua família, e o líder do grupo de teatro, que vive abertamente sua homossexualidade, mora numa comunidade a la Novos Baianos onde tudo é permitido e tem um caso com Paulete (Rodrigo Garcia), um dos artistas do bando. A primeira cena de sexo entre Fininha e Clécio é talvez das melhores e mais sensuais cenas gays já produzidas no cinema.

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A repressão é tratada em dois níveis: em um deles, a ditadura militar se contrapõe ao estilo de vida daqueles artistas e a toda a liberdade de expressão do espetáculo, ao ponto de a polícia proibir as apresentações. O outro nível é o das relações pessoais: em que momento o discurso “ninguém é de ninguém” e “não há nenhum contrato entre nós” começa a ferir os laços humanos de afeto? Ou seja: quando seria necessário reprimir os desejos em nome do sentimento que sustenta uma relação?

A trupe teatral do espetáculo 'Chão de Estrelas'
Divulgação
A trupe teatral do espetáculo 'Chão de Estrelas'

O diretor Hilton Lacerda fez um filme com muita liberdade. A nudez masculina e feminina é mostrada de maneira tão corriqueira que parece mesmo normal uma cena de teatro em que todos estejam nus. E aqui é diferente de "Hair", montagem da época retratada no filme onde a nudez era um sinal de libertação. Em "Tatuagem", a nudez illustra o enredo, e acompanha números musicais como "Tem cu, tem cu", cuja letra diz algo como: "Tem cu que é gordinho, tem cu bonitinho, tem cu que é doente, tem cu de parente" (a letra não é exatamente essa, desculpem a licença poética). Mas as liberdades – individuais ou coletivas - sempre esbarram em alguma coisa, com consequências mais ou menos sérias.

“Tatuagem” foi feito com R$ 2.200.000,00 (contra os R$ R$ 10.000.000,00 de “Serra Pelada”), e está sendo cotado para representar o Brasil no Oscar. Difícil. Se até “Behind the Candelabra”, o filme biografia sobre o pianista Liberace, foi considerado “gay demais” por Hollywood, “Tatuagem” vai ser considerado gaygaygay. Com razão.

No Brasil, teve uma próspera carreira de prêmios: no Festival de Cinema do Rio de Janeiro, ganhou o Especial do Juri, Melhor filme pela crítica internacional, Melhor filme pelo júri popular, Melhor ator (Irandhgir Santos) e Melhor ator coadjuvante (Rodrigo Garcia). Levou também os Kikitos de Melhor filme e Melhor ator (Irandhir) no Festival de Cinema de Gramado, e de Melhor Trilha Sonora para Dj Dolores.

Faz parte da programação do Mix Brasil:

10 de Novembro - Domingo - CineSesc - 22h 

14 de Novembro - Quinta-feira - Espaço Itau de Cinema - 20h 



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