Estudante de Sete Lagoas relata humilhação que sofreu na sala de aula. Ministro da Educação nega caso e afirma que o que tiver ocorrido será corrigido

A estudante Beatriz Trindade, 19, sofreu constrangimento durante a prova do Enem 2013
Arquivo pessoal
A estudante Beatriz Trindade, 19, sofreu constrangimento durante a prova do Enem 2013

Segundo dados do Ministério da Educação, 5,05 milhões de estudantes prestaram o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) no último fim de semana (26 e 27). Algumas histórias foram contadas em detalhe, caso daqueles alunos que chegaram atrasados e perderam a prova, de outros que foram flagrados fotografando a prova e toda ordem de acasos e infelicidades que acontecem num evento envolvendo tanta gente jovem.

Um pequeno grupo passou por situação ainda mais delicada: por ser trangêneros, foram impedidos de entrar no local do exame ou sofreram vários tipos de constrangimento enquanto faziam a prova.

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Falsidade ideológica foi a acusação contra um jovem que preferiu manter sua identidade em segredo na página “Homens Transexuais”, onde relatou seu infortúnio. Como seu RG contempla o nome feminino de batismo e sua foto pré-adequação de gênero, o documento não foi aceito e ele não conseguiu fazer a prova. Procurado pela reportagem, o jovem não respondeu aos pedidos de entrevista.

Porém, o seu relato deu início a uma série de outras reclamações de adolescentes que compartilharam histórias semelhantes. Foi o caso da mineira  Beatriz Trindade , ,19, que teve seu documento checado por três aplicadores em uma faculdade em Sete Lagoas (MG): “Fiquei muito constrangida", disse ela para o iG. "Eles me perguntaram se era eu mesmo, falavam meu nome civil muito alto, mesmo eu tendo pedido para eles não fazerem isso”, relata ela.

Além da dificuldade de obter a autorização dos profissionais para realizar a prova, Beatriz ficou em uma sala composta majoritariamente por homens, devido ao seu nome biológico. “Como é por ordem alfabética, acabo sempre entre os meninos”, explica ela.

Essa não foi a primeira vez que a candidata passou por situação parecida. Já cursando a faculdade de direito, optou por realizar o exame de novo este ano, apenas como teste. Uma coisa não mudou: o jeito como ela foi tratada. “Já estou fazendo direito, algo que sempre quis fazer. Fiz o Enem apenas como experiência, e de novo tive problemas com nome social, assim como no ano passado, e tenho toda vez que procuro algum serviço público, hospitais, etc.”

Sobre o que gostaria que acontecesse daqui para frente, após os sucessivos incômodos, Beatriz é enfática: “Bem, na verdade gostaria de ter um pouco mais de visibilidade. Nós (transgêneros) somos marginalizadas por toda a sociedade”, responde.

TROPEÇO DO MINISTRO

Durante a coletiva de encerramento do Enem, o ministro da educação, Aloizio Mercadante  , demostrando deconhecimento dos casos - e no geral, do assunto - declarou que não houve nenhum registro de incidentes envolvendo alunos transgêneros, e ainda se confundiu ao responder à pergunta de um repórter, colocando no mesmo grupo transexuais e bissexuais.

Quero na verdade um pouco mais de visibilidade, somos marginalizadas por toda a sociedade (Beatriz Trindade)

"Nunca tivemos nenhum problema em relação a transexuais, bissexuais, ou quem quer que seja que faça o exame", afirmou Mercadante. "A grande motivação do Enem é a inclusão, com total respeito à identidade e à diversidade. Não conhecemos casos específicos, nos anos anteriores não tivemos. Se tiver uma demanda, sentaremos com a entidade que os representa e dialogaremos com eles para ver se é necessário ter um procedimento especifico. Se for possível, respeitando a segurança, poderemos fazer [alterações no formulário]", concluiu.

A visibilidade, para aquele cuja identidade sexual está escrita no corpo, é obrigatória, e o preconceito e a violência que sofrem é muito maior. Precisamos resgatar a dignidade desse segmento (Jean Wyllys)

A questão do nome social é amplamente debatida entre os transgêneros e a comunidade LGBT. Em março deste ano, o deputado estadual Jean Wyllys   (PSOL-Rj) propôs o projeto de lei n. 5002/2013, batizado João Nery, que visa garantir a qualquer pessoa o reconhecimento e tratamento por sua identidade de gênero, nome, imagem e sexo nos documentos.

“A palavra ‘visibilidade’ tem, para nós, LGBT, uma conotação particular, mas para transexuais e travestis é bem diferente. Eles e elas não têm como ficar no armário depois de certa idade, e por isso, em muitos casos, são expulsos e expulsas de casa, da escola, da família, do bairro, até da cidade. A visibilidade, para aquele cuja identidade sexual está escrita no corpo, é obrigatória e o preconceito e a violência que sofrem é muito maior. Precisamos resgatar a dignidade desse segmento”, afirmou Wyllys por meio de nota. 

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