Destaque na última edição da Parada Gay no Rio, o grupo LGBT criado pelo roteirista Rafucko propõe choques de amor e glittervandalismo para combater o preconceito

No último fim de semana, um grupo de cerca de 50 jovens conseguiu se destacar entre as 300 mil pessoas que participaram da Parada do Orgulho LGBT do Rio de Janeiro. Com os rostos cobertos com pedaços de tecido rosa, eles formaram o Pink Bloc , uma versão gay do Black Bloc, a agressiva e anárquica estratégia de ativismo que ficou famosa no Brasil desde o último mês de junho, quando uma onda de manifestações tomou o País.

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A ideia de criar uma versão rosa Pink Bloc foi do videomaker e roteirista carioca Rafael Puetter , 27, que se inspirou em grupos LGBT similares existentes nos Estados Unidos e na Europa. Mais conhecido pelo apelido Rafucko , ele é famoso na internet brasileira pelos vídeos de humor sobre temas políticos e direitos da comunidade gay. No Youtube, suas paródias acumulam mais de dois milhões de visualizações.

“Nós fomos à Copacabana para jogar glitter nas pessoas que estavam nas ruas. Não queríamos que elas passassem despercebidas na Parada. Somos extremistas, mas extremistas do amor, da liberdade, dos direitos humanos”, defende Rafucko, explicando o ideário do Pink Bloc, que não inclui a violência, como acontece com o Black Bloc. “É uma brincadeira de cunho politico”.

No entanto, Rafucko diz que o rosa e a atitude debochada do grupo não devem ser confundidos com falta de seriedade do Pink Bloc, pelo contrário. “A parada virou festa e não tem nada de errado nisso, ela continua trazendo muita visibilidade, principalmente para a comunidade trans. Porém, o evento ignorou um momento politico extremamente importante no Rio de Janeiro e no Brasil, que foram as manifestações”.

O Pink Bloc não é um grupo deliberadamente hostil. Nossa luta é contra o patriarcado, o machismo, a homofobia, a transfobia e as organizações opressoras da felicidade humana (Rafucko)

Menos de uma semana antes da parada, Rafucko usou as redes sociais para convidar amigos e interessados em participar da estreia do Pink Bloc. O produtor de eventos Leonardo Arrighi , 25, foi uma das pessoas que atenderam ao chamado.

“Eu sou simpatizante da tática Black Bloc, mas não sei se teria coragem para participar e me colocar na linha de frente de uma manifestação deste tipo. Meu desejo era de contribuir de um modo diferente, e isso aconteceu por meio do Pink Block”, observa Arrighi, que se encantou com o lado performático do grupo LGBT. “Sou transfeminista e fiquei à vontade em participar. Acho maravilhoso o tom de sarcasmo, de deboche”, completa.

Glittervandalismo

No dia da parada, Rafucko divulgou o ideário de sua organização: “O Pink Bloc não é um grupo deliberadamente hostil. Nossa luta é contra o patriarcado, o machismo, a homofobia, a transfobia e as organizações opressoras da felicidade humana”.

Cartaz de convocação do Pink Bloc
Arquivo pessoal
Cartaz de convocação do Pink Bloc

Na sequência da mensagem, foi descrita uma inusitada ação que o grupo pretende realizar, o glittervandalismo, que consiste em jogar glitter em espaços públicos. Outro movimento planejado pelo Pink Bloc é a demonstração pública e orgulhosa de carinho entre homossexuais, o chamado “choque de amor”.

“Propusemos essa medida inspirados nas meninas que se beijaram no culto do ( Marco ) Feliciano . Elas promoveram um choque de amor. Essa poderia muito bem ter sido uma ação nossa”, aponta Rafucko, fazendo referência às estudantes Yunka Mihura , 20, e Joana Palhares , 18, que se beijaram durante a fala do referido deputado federal e pastor em um evento evangélico na cidade São Sebastião (SP), no último mês de setembro.

O deputado federal e colunista do iGay Jean Wyllys (PSol-RJ) aplaude a iniciativa. “O Pink Bloc é um deboche que trouxe a estética da manifestação para a parada, que trouxe o viés politico de volta. O evento ainda é muito importante, mas ficou muito institucionalizado. Muitos reclamam que a Parada virou festa, mas poucos fazem algo para mudar isso, eles estão fazendo, eles estão oxigenando o movimento”, analisa Wyllys.

O Pink Bloc é um deboche que trouxe a estética da manifestação para a parada. Muitos reclamam que virou festa, mas poucos fazem algo para mudar isso, eles estão fazendo, eles estão oxigenando o movimento” (Jean Wyllys)

Wyllys lembra que o estilo debochado do Pink Bloc é muito característico da comunidade gay. “O humor é um traço de identidade dos LGBTs. Até o mais machão ‘solta a franga’ às vezes. Um grupo que sofre tantas opressões precisa de algo para resistir. O mais importante é que o humor gay olha para si mesmo, não diminui outras minorias, mas fala de si mesmo”.

Rafucko e seus companheiros ainda não definiram os próximos passos do grupo. “Somos um movimento organizado de forma horizontal e descentralizado. Por ora, não há nada planejado. Mas nada impede que outras pessoas se juntem e façam uma ação do Pink Bloc independente de nós. Aliás, se isso acontecer, será ótimo”, conclui.

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