No Dia do Líder Comunitário, iGay mostra a rotina da transgênero que faz sucesso numa das maiores favelas de São Paulo com o programa da rádio "A Tarde do Babado"

Todos os fins de semana, entre 13h e 15h, ela vira o centro das atenções de Heliópolis, uma das maiores comunidades da cidade de São Paulo, situada na Zona Sudoeste. Estrela da rádio comunitária local, a travesti Gerô comanda neste horário, aos sábados e domingos, o descontraído programa "A Tarde do Babado".

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O programa é uma espécie de parada de sucessos que toca as músicas mais pedidas pelos ouvintes – vale qualquer estilo musical. “Meu programa é variado, eclético e sem preconceito. Toco de tudo, do forró ao rap, do samba ao funk. Vale tudo”, descreve Gerô, que prefere não revelar sua idade. 

Além de ligar para a Rádio Heliópolis, os moradores fazem seus pedidos no perfil no Facebook de Gerô e também pessoalmente. Durante a tarde de sábado que a reportagem do iGay acompanhou a transmissão do programa, vários bateram à porta da emissora para pedir músicas pessoalmente.

Nos intervalos entre as músicas, a apresentadora manda recados dos moradores e prestigia o comercial local, citando nominalmente os donos e funcionários dos estabelecimentos. Gerô também responde aos inúmeros convites que recebe dos seus vizinhos. “Vou a todos os churrascos, batizados e aniversários que me convidam. Se ninguém me chama, fico triste”, admite a travesti.

Uma das regras principais (de Heliópolis) era: ‘veado não mora aqui. Eu, que já tinha trejeitos, apanhei muito, entrei para lista de quem ia ser expulso várias vezes, mas resisti

Quando chegou a Heliópolis há 28 anos, Gerô não podia imaginar que alcançaria essa popularidade. A própria comunidade estava distante do que é hoje. De acordo com dados da União de Núcleos, Associações e Sociedade de Moradores de Heliópolis e São João Clímaco (Unas), 200 mil habitantes vivem lá atualmente, em 18 mil imóveis.

“Era tudo dominado por grileiros. Mesmo sendo um local invadido, os moradores tinham que pagar taxas a esses exploradores. Eles diziam quem podia ou não viver aqui. Uma das regras principais era: ‘veado não mora aqui. Eu, que já tinha trejeitos, apanhei muito, entrei para lista de quem ia ser expulso várias vezes, mas resisti”, conta Gerô, que chegou à comunidade em 1985, aos 16 anos. Nesta época, ela ainda não tinha assumido a sua identidade feminina e ainda mantinha o nome de batismo, Geronino Barbosa.

Como a maior parte dos moradores de Heliópolis, Gerô é uma imigrante. Ela nasceu na cidade de Mato Verde, no extremo norte de Minas Gerais. “Eu comecei a trabalhar na roça com sete anos. Só consegui ir para escola dois anos depois. Mas só ia à aula uma vez por semana”, lembra a radialista. “A gente escolhia o dia que servia macarrão com jabá”, completa ela, que até hoje exibe nas mãos os calos causados pelo manuseio da enxada.

Mesmo tendo ido pouco à escola na infância, Gerô adquiriu na ocasião gosto pelos estudos. Tempos depois, aos 21 anos, ela voltou a estudar e hoje tem dois diplomas universitários. Ela é formada em Jornalismo e em Pedagogia.

Ao andar pelas ruas da comunidade Gerô é elogiada por homens e mulheres:
Edu Cesar
Ao andar pelas ruas da comunidade Gerô é elogiada por homens e mulheres: "Maravilhosa", grita uma senhora voltando das compras

Foi também com 21 anos que Gerô começou a exercitar o papel de líder comunitária que desempenha até hoje, lutando então por melhorias nas escolas da comunidade. Na mesma época, ela começou a reunir a comunidade LGBT local para tomar o seu famoso caldinho de feijão.

“Tinham muitos gays casados com mulheres e lésbicas com homens. Mas eu já sacava a deles, né? Aí chamava todo mundo para conversar em casa”, explica a radialista.

Todo esse trabalho na comunidade fez o nome de Gerô ser uma escolha óbvia para ter um programa quando a Rádio Heliópolis foi criada, em 1997. A legalização da frequência só viria 11 anos depois, em 2008. A travesti recebeu a outorga da emissora das mãos do então presidente Lula.

A mãe, que Gerô trouxe de Minas junto com mais sete irmãos, é a grande inspiração da trajetória da radialista. “Eu me espelho muito na luta dela. Ela não é de dar conselhos, mas sempre foi muito forte, guerreira. Nunca me recriminou por eu ser homossexual. Só me lembro de uma única crítica, quando ela disse para uma amiga que ficava acanhada por sair comigo vestida de mulher”.

Gerô diz que uma frase de sua mãe foi fundamental para dar prosseguimento no seu trabalho. “Ela me falou um dia: ‘o povo tem fé na sua palavra’”, recorda a radialista. Outra inspiração dela é a personagem Titi ( John Leguizamo ) do filme “Para Wong Foo, Obrigada Por Tudo! Julie Newmar”, de 1995.

“Eu me sinto como a Titi, um menino de vestido. As outras travestis do filme eram lindas, sou esse menino que corre de menina por aí”, descreve Gero, demostrando satisfação com suas conquistas, mas sem desistir de traçar novos objetivos, como o de criar novas iniciativas para incentivar o uso de preservativos entre os jovens de Heliópolis. “O povo até fala que a gente tá estimulando o adolescente a transar. Mas a verdade é que eles já transam. Só não se protegem, tem que ter preservativo para todo lado”, propõe.

Só saio de Heliópolis uma vez por ano para ir à parada gay. Não tenho motivos para sair. Conquistei meu espaço, aqui eu sou a Gerô. Fora daqui, sou só mais uma

Mudar de Heliópolis não está nos planos da travesti. “Aqui, a gente se diverte tudo junto e misturado. Vamos para o forró, churrasco e baile funk. Não tem essa de balada gay. Todo mundo se respeita”, observa Gerô, apontando uma das vantagens de viver na comunidade.

“Só saio de Heliópolis uma vez por ano para ir à parada gay. Não tenho motivos para sair. Conquistei meu espaço, aqui eu sou a Gerô. Fora daqui, sou só mais uma”, conclui a radialista.

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