O jovem casal lésbico que provocou a ira de Marco Feliciano com um beijo

Por Iran Giusti , do iG São Paulo |

Texto

Por ordem do deputado federal e pastor, Yunka Mihura, 20, e Joana Palhares, 18, foram presas por se beijar. Estudantes falam ao iGay e prometem processar político evangélico

Yunka Mihura e Joana Palhares. Um beijo como esse as levou para a cadeia  . Foto: Arquivo pessoalJuntas há um ano, Yunka e Joana foram ao evento para protestar contra marco Feliciano. Foto: Arquivo pessoalAs estudantes afirmam que apenas se beijaram . Foto: Arquivo pessoalAssim como elas, casais heterossexuais se beijavam no evento público. Foto: Arquivo pessoalYunka Mihura e Joana Palhares pretendem processar Feliciano . Foto: Arquivo pessoalYunka Mihura: 'Ele (Marco Feliciano) incitou a violência' . Foto: Arquivo pessoal

Há cerca de um ano, o casal Yunka Mihura, 20, e Joana Palhares, 18, deu o seu primeiro beijo na Rua da Praia, na cidade de São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, durante um show da banda Charlie Brown Jr. O gesto de carinho foi aplaudido pelos amigos das duas jovens, que torciam para que elas ficassem juntas.  

ACOMPANHE O IGAY NO FACEBOOK  

Um ano depois, no último domingo (15), o mesmo gesto fez com que elas fossem levadas a uma delegacia. Desta vez, o beijo do casal foi um protesto contra o controverso deputado federal e pastor evangélico Marco Feliciano (PSC-SP), presidente da Comissão dos Direitos Humanos e Minorias do Congresso Nacional (CDHM), que comandava o evento 5º Glorifica Litoral, na mesma Rua da Praia.

Yunka e Joana faziam parte de um grupo de 20 pessoas que prostestavam contra Feliciano, que chegou a propor um projeto de 'tratamento' da homossexualidade, a tal da 'cura gay'. Ele disistiu da ideia depois da repercussão negativa que a iniciativa provocou.

O comandante e outros policiais jogaram a gente embaixo do palco e começaram a bater na Joana, tapas na cara, eu comecei a gritar muito e logo depois me tiraram (Yunka Mihura)

O casal afirma que o prostesto estava sendo recebido de forma pacífica até a chegada do pastor e deputado.  “Ele (Feliciano) subiu ao palco olhando para a gente, alguém deve ter avisado. Já tínhamos nos beijado várias vezes e ninguém falou nada. Olhavam, mas não falavam nada. Foi só quando o Feliciano falou que deveríamos ser presas que começaram a vaiar. Ele incitou a violência”, acusa Yunka.

Segundo  o casal,  a pedido de Feliciano, soldados da Guarda Civil Metropolitana se aproximaram do casal propondo um cordão de isolamento, que logo descambou para uma sessão de espancamento. “O comandante e outros policiais jogaram a gente embaixo do palco e começaram a bater na Joana, tapas na cara, eu comecei a gritar muito e logo depois me tiraram”, relata Yunka.

Vídeo mostra Marco Feliciano mandando prender casal lésbico:


“Eram três policiais me segurando, mas eu peso 50 quilos. Por que precisaria de três policiais?”, questiona Joana. Ambas garantem que em nenhum momento atrapalharam o evento. Elas dizem ainda que casais heterossexuais se beijavam e consumiam bebidas alcoólicas, sem ser incomodados.  

O evento era público, pago com o nossos impostos. Aquele palco, aquele microfone, tudo tinha dinheiro público. Também era um espaço aberto, na Rua da praia. Estar ali era direito nosso (Yunka Mihura)

“A gente sempre teve muita indignação em relação ao Feliciano. Estávamos lá contra o deputado e não contra o pastor e sua religião. A gente quer que ele saia do cargo, fomos para demonstrar nossa indignação. Um deputado de uma Comissão de Direitos Humanos nunca incitaria a violência ou mesmo pediria que homossexuais fossem presos por estarem se beijando”, desabafa Yunka.

Arquivo pessoal
Yunka Mihura e Joana Palhares

Depois da confusão, o casal foi encaminhado para o 1º Distrito Policial de São Sebastião. Lá, elas foram ouvidas e fizeram um boletim de ocorrência denunciando a agressão dos guardas municipais. Elas pretendem processar a prefeitura e o próprio deputado Feliciano. 

“O evento era público, pago com o nossos impostos. Aquele palco, aquele microfone, tudo tinha dinheiro público. Também era um espaço aberto, na Rua da praia. Estar ali era direito nosso”, argumenta Yunka.  

Em nota, a Prefeitura de São Sebastião declarou que os homens da Guarda Municipal atuaram no intuíto de evitar que as duas jovens fossem agredidas pela multidão que as cercava.  

Em seu Twitter, o deputado Feliciano se defendeu dizendo que estava agindo legalmente ao ordenar que o casal fosse preso. "Toda vez que indivíduos adentram o local de culto, seja onde for, e atentam sem pudor contra nossos princípios, ferem nossos direitos", escreveu ele na rede social

As meninas estavam exercendo seu direito de ir e vir. Foi um ato que demonstrou uma motivação discriminadora. Pedir que a força policial retire alguém de um evento público é um absurdo, não era um culto fechado (Adriana Galvão)

Presidente da Comissão de Diversidade Sexual da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de São Paulo, a advogada Adriana Galvão discorda do argumento do deputado, dizendo que a prisão não teve base legal e foi arbitrária.

 “As meninas estavam exercendo seu direito de ir e vir. Foi um ato que demonstrou uma motivação discriminadora. Pedir que a força policial retire alguém de um evento público é um absurdo, não era um culto fechado”, rebate Galvão. 

Adriana ainda informa que Yunka e Joana podem entrar com um processo administrativo contra Feliciano, baseado na Lei 10948/01, que pune indivíduos, estabelecimentos e órgãos públicos por homofobia.

“O processo é sempre em relação a quem cometeu o ato de homofobia, no caso, Feliciano, e, eventualmente, as autoridades envolvidas que cumpriram ordens arbitrárias”, aponta a advogada.

Leia tudo sobre: iGayMarco Felicianomaislidas
Texto

notícias relacionadas