Soldado condenada a 35 anos de prisão pediu para ser tratada como mulher, mas poucos veículos atenderam. Caso coloca em xeque a maneira como imprensa trata os transexuais

Geralmente ágeis, os apresentadores, repórteres e editores de muitos lugares do mundo tropeçaram nas palavras na última quinta-feira (22) quando David E. Coombs , o advogado de Bradley Manning , declarou que a partir daquele momento o soldado condenado a 35 anos de prisão por espionagem e vazamento de dados pelo governo americano deveria ser chamado de Chelsea.

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Desde então, o debate sobre como chamar Manning se deflagrou nas redações e nos comentários em blogs e redes sociais. Savannah Guthrie , apresentadora do programa “Today”, da rede NBC, que entrevistou o advogado, usou as referências masculina e feminina ao mencionar a ex-soldado, mas agências de notícias continuaram a usar o nome Bradley e o pronome ‘ele’.

A princípio, o porta-voz da Associated Press (AP) Erin Madigan White disse que a agência vai seguir o seu manual de redação, que aconselha: “usar o pronome escolhido pelos indivíduos que adquiriram as características físicas do sexo oposto e apresentá-los de uma forma que não corresponda com o sexo de nascimento deles”.

Posteriormente, a AP divulgou um comunicado sobre como pretende conduzir a questão. A agência informou que vai usar referências neutras de gênero para se referir a Manning , “de uma maneira pertinente a questão transexual."

A Rádio Nacional Pública americana vai continuar, pelo menos por enquanto, a se referir a Manning como 'ele', segundo a porta-voz da emissora, Anna Bross . "Até o desejo de mudar fisicamente de sexo de Bradley Manning se concretizar, nós vamos usar pronomes relacionados ao gênero masculino para identificá-lo", afirmou Bross.

Rico Ferraro , porta-voz da Aliança Gay e Lésbica Contra a Difamação (GLAAD), disse que vai procurar os órgãos de imprensa para pedir que eles passem a se referir a Manning como ela.

O representante da GLAAD lembrou que a maior parte dos manuais de redação dos veículos de comunicação já recomenda o uso de pronomes que os próprios indivíduos transgêneros escolheram para si. “Esse caso mostra como a mídia tem coberto de maneira distante a questão da transexualidade”, observa Ferraro, acrescentando que usar pronomes masculinos para se referir a Manning vai contra a maneira mais justa de se falar dos transexuais.

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Getty Images
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O manual de redação The New York Times recomenda que os jornalistas se refiram as pessoas da maneira que elas preferirem. No entanto, o editor-chefe do jornal Dean Baquet acredita que o caso Mannig deve ser tratado de uma maneira particular.

"De modo geral, chamamos as pessoas pelo nome que elas nos pedem, nos casos em que estas estão começando uma nova vida. Mas neste caso, julgamos que seria confuso para os leitores mudar o nome e o gênero da figura principal de uma grande cobertura jornalística que ainda está em execução. Esta não é uma decisão política, tem apenas o objetivo de atender os nossos leitores”, declarou Baquet.

Em texto em seu blog, a editora de público do New York Times Margaret Sullivan encorajou o The Times a mudar a maneira como se refere Manning, chamando a de Chelsea.

"Talvez seja melhor mudar rapidamente a forma de tratamento para o feminino, explicando a mudança, do que fazer o contrário disso", escreveu Sullivan.

Alguns veículos, como o jornal online The Huffington Post, já atenderam o desejo de Manning. A revista New York também já se refere a ex-soldado como 'ela'.

Para a editora da New York Maureen O'Connor , toda a confusão relacionada ao nome da ex-soldado tem dois motivos: os sentimentos divididos que Manning provoca e o medo de melindrar os leitores.

"Qual a pior coisa que poderia acontecer: ela mudar de ideia e voltar a se definir como ele? O pior cenário é tão ínfimo que nem chega a se qualificar como um problema”, argumentou O'Connor, em artigo na própria revista.

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