Originada nos EUA, comunidade cresce no Brasil combatendo o estereótipo gay de beleza dos malhados e depilados

Quem frequenta a cena gay já se deparou com eles por aí, nas baladas, festas e bares. Sem falar nos aplicativos de encontros. Barbudos, cheinhos, peludos, e muitas vezes vestidos com uma camisa de flanela xadrez, eles se autodenominam como ursos.

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Surgida originalmente nos Estados Unidos na década de 60, a tribo dos ursos nasceu com a proposta de se contrapor ao estereótipo gay malhado, depilado e com roupas grudadas ao corpo. Ao logo das décadas seguintes, o grupo foi desenvolvendo as características citadas acima.

Guilherme Almeida:
Arquivo pessoal
Guilherme Almeida: "É muito bacana você conviver com pessoas que não se importam com depilação ou só com o físico”

No Brasil, essa turma é cada vez maior, com baladas específicas na noite gay, redes sociais próprias, revistas segmentadas e comunidades online.

“A gente não gosta de modismo, não existe essa coisa de depilação, academia e moda. Os ursos não são nem muito adeptos da bandeira do arco-íris e sim da sua própria bandeira”, explica o fotógrafo Marcelo Gomes de Andrade , 43, citando a flâmula com faixas nas cores preto, branco, amarelo e em tons de marrom, com uma pata as sobrepondo.

Também da tribo, o publicitário Guilherme Almeida , 25, defende a ideia de que a ‘comunidade ursina’ é a representação da luta contra a estética da beleza. “Nem sempre o urso é gordo, é mais uma questão do pelo, é muito bacana você conviver com pessoas que não se importam com depilação ou só com o físico”, constata Guilherme, que conheceu esse universo numa viagem de intercâmbio para a Austrália, durante a sua adolescência.

Nada de arco-íris: mais sóbria, a bandeira ursina tem uma simpática pata de urso
Reprodução
Nada de arco-íris: mais sóbria, a bandeira ursina tem uma simpática pata de urso


“Eu costumo ir apenas as lugares de ursos, é lá que me sinto acolhido”, confessa Guilherme, que rebate a ideia de que a comunidade ursina é muita fechada. “Se eu vou para a The Week, aqui em São Paulo, também não vou me sentir acolhido. Não estarei entre pessoas que me atraem esteticamente e nem vou agradá-las também”, argumento o publicitário, fazendo referência a famosa balada paulistana conhecida pelos frequentadores sarados e depilados.

Guilherme se sente tão à vontade neste universo que até foi parar nos Estados Unidos para participar de um encontro de ursos no último mês de julho. O evento, chamado Provincetown Bear Week, aconteceu na cidade de Provincetown, em Massachusetts.

“É incrível, tem programação o dia todo. De jogos na praia às festas com os temas lenhador, bombeiro, luta-livre e roupas de couro. No fim, você não aguenta mais homem peludo na frente”, brinca o publicitário.

Daybes Antônio Gomes, participante da comunidade ursina há pouco mais de um ano
Arquivo pessoal
Daybes Antônio Gomes, participante da comunidade ursina há pouco mais de um ano

Chasers, cubs, polar bear e mais

A tribo tem até um grupo de admiradores. Identificados como ‘chasers’ (caçadores em inglês), eles não têm todas as características dos ursos, mas são bem aceitos na comunidade ursina. Magro, o estudante carioca Daybes Antônio Gomes , 22, é um deles.

“Eu ia para as baladas e entrava em aplicativos tipo o Grindr e o papo não me interessava. A estética também não. Aí descobri que havia essas pessoas mais peludas, gordinhas, e comecei a frequentar”, relata Daybes, que exalta a cena do Rio de Janeiro, descrita como acolhedora e tradicional.“Das festas aos apps, é sempre a mesma galera. Um grupo fechado, mas muito unido, como uma irmandade mesmo”.

Além dos chasers, a comunidade ursina tem outras subdivisões. A pedido do iGay , o fotógrafo Marcelo, que edita a revista especializada Bear + Magazine, traçou um perfil de cada uma delas. Confira:




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