Tamanho do texto

Ouvidas pelo iGay, lideranças aproveitam visita do líder da Igreja Católica para cobrar mais diálogo e tolerância com a população homossexual

Em sua primeira visita ao Brasil como líder máximo da Igreja Católica, o papa Francisco tem atraído multidões por onde passa com o seu inegável carisma. No entanto, a simpatia do argentino Jorge Mario Bergoglio não evita as críticas dirigidas a ele por importantes líderes do movimento LGBT ouvidos pelo iGay .

CURTA A PÁGINA DO IGAY NO FACEBOOK 

“Durante o debate da lei de casamento igualitário na Argentina, Bergoglio agiu como um líder extremista. Disse que a lei era uma manobra do Demônio para destruir o plano de Deus e chamou à guerra santa”, lembra o deputado federal e colunista do iGay Jean Wyllys , recordando a postura do religioso em 2010, que na ocasião era arcebispo de Buenos Aires .

A verdade é que Bergoglio é um quadro político, formado na direita peronista, é muito hábil e há muito tempo que trabalha para ser papa. Ele agiu e continuará agindo como mais lhe convier (Jean Wyllys)

Jean diz ainda que o papa tinha uma posição dúbia em relação à lei do casamento gay na Argentina. “Depois de chamar publicamente à guerra santa, ele ligou para um ativista gay católico que o tinha questionado e disse que ele, na verdade, não pensava assim, mas tinha sido pressionado pelos setores mais reacionários da Igreja”, relata o deputado, que prossegue ressaltando o lado político do religioso.

“A verdade é que Bergoglio é um quadro político, formado na direita peronista, é muito hábil e há muito tempo que trabalha para ser papa. Ele agiu e continuará agindo como mais lhe convier”, opina Jean.

Pioneiro do movimento LGBT, Luiz Mott , presidente do Grupo Gay da Bahia, tem opinião igualmente crítica a respeito do líder religioso. “O Papa Francisco é pior ainda que o pastor (Marco) Feliciano , já que é muito mais poderoso, rico e inteligente. Ele começou o seu pontificado com duas atitudes profundamente anti-homossexuais: canonizou o maior homófobo do século 20, o papa João Paulo II , e assinou com o papa Bento XVI  a sua primeira encíclica, onde condena a família homoafetiva”.

O Papa Francisco é pior ainda que o pastor (Marco)Feliciano , já que é muito mais poderoso, rico e inteligente (Luiz Mott)

A visão crítica em relação ao papa também é partilhada por lideranças jovens, como é o caso do estudante de direito da UFRJ João Pedro Accioly Teixeira, 19, que atua no Núcleo da Diversidade Sexual da Defensoria Pública do Rio de Janeiro. Para mostrar sua contrariedade às posições do pontífice, Teixeira organizou na última segunda-feira (23) um beijaço LGBT de protesto no Largo do Machado, no Rio.

João acredita que há na sociedade uma falsa percepção sobre a figura do religioso. “Muita gente diz que o Papa Francisco tem um posicionamento mais aberto que o Bento XVI, mas isso não é verdade”, observa Teixeira.

Jean Wyllys e Luiz Mott têm posições contundentes em relação ao papa Francisco
André Giorgi/Divulgação
Jean Wyllys e Luiz Mott têm posições contundentes em relação ao papa Francisco


Hora do diálogo

Independentemente das posições do papa Francisco, algumas lideranças LGBT entendem que é hora de abrir pontes e iniciar um diálogo com o líder do catolicismo. “Igreja não é amor? Não é falar com minorias? Porque então não dialogar com a comunidade gay? Hoje o discurso da igreja dificulta muito a aceitação dos pais em relação aos filhos gays, gera homofobia, violência doméstica e vergonha para um pai  religioso que acredita que o filho vive em pecado. Espero que o Papa Francisco mude isso", questiona Edith Modesto , presidente do Grupo de Pais de Homossexuais (GPH). 

“Igreja não é amor? Não é falar com minorias? Porque então não dialogar com a comunidade gay? (Edith Modesto)

"É preciso rever essa postura da instituição que se diz tão humana e baseada no amor, e começar a se falar em igualdade”, acrescenta Carlos Magno Fonseca , presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transexuais (ABGLT).

João Pedro Accioly Teixeira organizou beijaço LGBT para protestar contra o papa Francisco
Reprodução/Facebook
João Pedro Accioly Teixeira organizou beijaço LGBT para protestar contra o papa Francisco

O presidente da ABGLT cobra também que a Igreja Católica seja mais tolerante com os padres que dão opiniões favoráveis ao movimento gay. “O caso do Padre Beto precisa ser lembrado, é importante ter figuras que falem sobre sexualidade na igreja”, ressalta Carlos, lembrando o caso do pároco da cidade paulista de Taubaté que foi excomungado por ter ser posicionado a favor da diversidade sexual e dos relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo.

A opinião de Carlos encontra eco na de Júlio Moreira , presidente do Conselho Estadual dos Direitos da População LGBT do Rio de Janeiro e do Grupo Arco-íris. “A Igreja Católica é muito ampla, com visões dispares e precisamos dialogar para que a parte progressista tenha seu espaço, precisamos cultivar um clima favorável ao debate”, afirma.

Wyllys conta que esse diálogo já começou. “Eu já tive reuniões com altíssimas autoridades da Igreja, que me pediram para não divulgar seus nomes ou o conteúdo das reuniões, porque a Igreja tem uma verticalidade muito autoritária”, revela o deputado, que cita nomes de lideranças progressistas da religião. “O padre Luis Corrêa Lima, no Rio, é um exemplo. Ele faz um trabalho extraordinário. Na Argentina, o padre Nicolás Alessio encabeçou passeatas a favor da lei de casamento igualitário”.

Além do positivo posicionamento de algumas lideranças religiosas, a ideia de que a posição anti-gay da cúpula da Igreja Católica não é compartilhada por todos os católicos foi reforçada por uma pesquisa recente do Ibope, que apontou que 56% dos jovens adeptos da religião apoiam a união entre pessoas do mesmo sexo .

“A partir do momento em que os dogmas interferirem na vida politica do país é preciso tomar uma atitude” (Júlio Moreira)

Contudo, Julio, presidente do Arco-Íris, ressalva que se abra um diálogo com a Igreja Católica é preciso estar atento para que o Estado brasileiro se mantenha laico, separando religião e política. “A partir do momento em que os dogmas interferirem na vida politica do país é preciso tomar uma atitude”, finaliza.