Pesquisas mostram que os casamentos homossexuais têm menos conflitos que os héteros, mas têm mais chances de separação. Veja mais dados de estudos

Certa vez, durante um monólogo exibido tarde da noite na TV, o apresentador de talk show David Letterman fez uma série de questionamentos sobre o casamento gay.

"Quem é que faz a despedida de solteiro?", indagou o comediante. "Quem desce as escadas no meio da noite para ver o que é aquele barulho? Quem se esquece do aniversário de casamento? Quem se nega a parar e perguntar o caminho? E qual dos dois demora a vida inteira para se arrumar?"

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A piada gerou as risadas esperadas da plateia, mas também era um exemplo claro da tentativa de definir o casamento gay a partir do casamento heterossexual. Embora haja muitas similaridades entre casamentos gays e heterossexuais, uma década de pesquisas em ciências sociais mostra que casais formados por pessoas do mesmo sexo adaptaram muitos aspectos dessa instituição.

Relacionamentos gays costumam ser mais igualitários, em parte por que casais formados por pessoas do mesmo sexo não dividem os papéis com base nas diferenças de gênero tradicionais. Casais gays também relatam menos conflitos e um relacionamento mais feliz. Já que frequentemente não contam com o apoio dos familiares, casais gays costumam receber muito apoio social de sua rede de amigos.

Relembre os casais gays famosos dos seriados da TV na galeria:

Agora que duas decisões da Suprema Corte abriram caminho para que mais casais formados por pessoas do mesmo sexo se casem nos Estados Unidos, pesquisadores em relacionamento afirmam que há lições importantes a serem aprendidas pelo estudo contínuo de casais gays bem e mal sucedidos.

Recentemente, o Instituto Nacional de Saúde aprovou um estudo de US$ 1 milhão envolvendo casais gays e heterossexuais que foram acompanhados ao longo de um período de 10 anos por pesquisadores da Universidade do Estado de San Diego. Um dos maiores estudos desse tipo, a pesquisa foi iniciada logo depois que o estado de Vermont legalizou as uniões civis entre pessoas do mesmo sexo em 2000. O estudo original se concentrou em quase 1.000 casais, incluindo casais formados por pessoas do mesmo sexo e seus irmãos heterossexuais. A inclusão dos irmãos permitiu que os pesquisadores comparassem as similaridades e as diferenças entre casais gays e heterossexuais formados com pessoas de idades próximas e os mesmos contextos religiosos e familiares.

Atualmente, cerca de 750 casais continuam nesse estudo corte, e o novo estudo patrocinado pelos Instituto Nacional de Saúde consistirá em um acompanhamento de 10 anos para determinar como os casais se saíram.

"Os casais de pessoas do mesmo sexo que realizaram uniões civis em Vermont no ano 2000 sempre serão os casais gays legalmente casados há mais tempo na América do Norte"¸ afirmou Esther Rothblum, professora de estudos femininos na Universidade do Estado de San Diego e autora da pesquisa. "Há muito que aprender sobre eles, mas ainda sabemos muito pouco. Na maioria das vezes que fazem perguntas sobre casais de mesmo sexo, minha resposta é 'Ainda não sabemos'."

Depois que os casais haviam sido acompanhados durante três anos, os primeiros dados da pesquisa foram publicados em 2004 na revista The Journal of Family Psychology, que foi seguida de um acompanhamento em 2008 na revista Developmental Psychology. Embora as descobertas tenham sido esclarecedoras, a pesquisa gerou mais questionamentos sobre como o gênero pode influenciar dinâmicas conjugais simples.

Casais gays não dividem os papéis com base nas diferenças de gênero tradicionais
Getty Images
Casais gays não dividem os papéis com base nas diferenças de gênero tradicionais


Uma das descobertas mais notáveis foi a de que em quase todas as medidas os casais formados por pessoas do mesmo sexo relatavam níveis mais altos de felicidade conjugal, se comparados a casais heterossexuais. Casais gays também relataram menos conflitos que casais heterossexuais e um nível mais alto de intimidade. Casais gays também costumavam sentir que podiam confiar em seus parceiros, vivenciando níveis mais altos de afeição e vidas sexuais mais satisfatórias.

Uma das razões pelas quais casais gays relatam níveis maiores de satisfação e menores de conflitos é o fato de que seus relacionamentos são menos pautados pelos papéis tradicionais. Homens, sejam eles gays ou heterossexuais, frequentemente achavam mais fácil se comunicarem e compartilharem suas perspectivas com outros homens. Mulheres, por sua vez, acreditavam que a comunicação com outras mulheres era mais fácil.

"Gosto de dizer que, se homens são de Marte e mulheres são de Vênus, é mais fácil quando dois marcianos negociam um conflito", afirmou Rothblum. "Embora tudo seja igual, casais gays são formados por pessoas que se socializaram de formas similares".

Muito embora os casais gays tenham relatado níveis gerais de felicidade mais altos, eles também têm mais chances de se separarem. Após os três primeiros anos de acompanhamento, o volume de separações entre casais formados por pessoas do mesmo sexo participantes do estudo que não oficializaram a relação estável era de 9,3%. Contudo, 3,8% dos casais gays em uniões estáveis e apenas 2,7% dos casais heterossexuais se separaram.

Entretanto, embora isso possa parecer uma contradição, as descobertas sugerem que fatores externos – como pressões familiares, filhos e compromissos de ordem financeira, tais como a hipoteca – exerçam um papel maior do que a simples felicidade em casamentos heterossexuais. Casais gays geralmente relatam menos relacionamentos familiares próximos e têm menos chances de terem filhos.

Os dados também indicam que o reconhecimento legal, seja a união civil ou o casamento, serve como uma espécie de cola que ajuda os casais – sejam gays ou heterossexuais – a manterem relacionamentos de longa duração.

"Quando as coisas não vão bem, casais formados por pessoas do mesmo sexo podem achar o processo de separação mais fácil", afirmou Rothblum. "Agora que as leis do casamento estão se tornando mais comuns, casais gays também terão que passar pelo processo legal da separação."

Outra lição importante dessa pesquisa, segundo ela, é que a duração do casamento não serve para aferir a felicidade do casal.

"Com frequência, quando falam sobre separação, divórcio ou infelicidade, presumimos que todas sejam a mesma coisa", afirmou Rothblum. "Porém, acredita-se que muitas pessoas continuam casadas e são infelizes enquanto outras são mais rápidas em se separarem. Só por que os casais heterossexuais ficam mais tempo juntos, isso não significa que eles sejam sempre felizes. Pode ser que existam razões externas, mais pressões sociais enfrentadas por casais para ficarem juntos."

*Tara Parker Pope é jornalista especializada em bem-estar, autora do livro “Felizes Para Sempre – A Ciência Para Um Casamento Perfeito!” (Universo dos Livros)

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