Mateus Solano sobre Félix: "Muita bicha má é frustrada por não ser aceita"

Por William De Lucca , especial para o iG |

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Com vários galãs no currículo, ator de 32 anos diz que é a favor do casamento igualitário e da adoção por casais do mesmo sexo. E que deseja aos jovens homossexuais que são reprimidos pela família "toda a sorte e toda a coragem do mundo"

Matheus Solano como o intérprete de Félix em Amor à Vida. Foto: TV Globo/Raphael DiasO ‘lado negro da força’ tem mais integrantes além de Félix (Mateus Solano) de “Amor à Vida”. Como você pode ver nesta galeria . Foto: DivulgaçãoMaquiavélico, mas com tiradas divertidas, Félix conquistou o público com o seu jeito venenoso de ser . Foto: TV Globo/ DivulgaçãoJavier Barden vive outro vilão ‘encantador’ em “007 - Operação Skyfall” (2012). O personagem dele tira até uma casquinha de James Bond. Foto: DivulgaçãoUm estilo mais discreto, mas não menos maldoso tem o lacaio Thomas Barrow (Rob James-Collier), da série inglesa “Downton Abbey”. Foto: DivulgaçãoCasca grossa, a presa Araci (Cristiana Oliveira) mandava e desmandava no presidio que era cenário da novela “Insensato Coração” (2011). Foto: DivulgaçãoApesar da cara de nerd inofensivo, o personagem Tom Ripley (Matt Damon) era um golpista de primeira em “O Talentoso Ripley” (1999). Foto: DivulgaçãoA vilã bissexual Catherine Tramell (Sharon Stone) fazia miséria em “Instinto Selvagem” (1992) com um picador de gelo. Foto: ReproduçãoA dupla da pesada é do filme “Festim Diabólico” (1948), de Alfred Hitchcock. Dentro do baú da foto, está o corpo de uma vítima deles. Foto: DivulgaçãoDa série “True Blood”, o vampiro gay Russell Edgington (Denis O'Hare) tem mais de 3 mil anos de maldade pura . Foto: ReproduçãoTambém de “True Blood”, a vampirona bissexual Pam (Kristen Bauer) exala sensualidade e maldade . Foto: ReproduçãoNa série “Cinquentinha” (2008), da Globo, Carlo Berganti (Pierre Baitelli)  tinha muita classe e nenhum pingo de caráter . Foto: DivulgaçãoA série “Glee” tem em seu elenco uma personagem que faz a linha vilã sexy.  Santana Lopez (Naya Rivera) é pura maldade teen . Foto: ReproduçãoAliás, “Glee” teve alguns vilões gays em suas temporadas, com Jesse St. James (Jonathan Groff). Foto: ReproduçãoOutro vilão de “Glee”,  Sebastian (Grant Gustin) causou a ira dos fãs da série ao atrapalhar o romance do casal Kurt (Chris Colfer) e Blaine (Darren Criss). Foto: DivulgaçãoPsicótico até o último fio de cabelo, Tyler (Ashton Holmes) marcou a primeira temporada da série “Revenge”. Foto: Divulgação

Viver o primeiro vilão homossexual (e dentro do armário) tem sido um desafio para Mateus Solano, que interpreta o administrador Félix na novela "Amor à Vida". Aos 32 anos, o ator nascido em Brasília tem alguns galãs no currículo, como os gêmeos Miguel e Jorge, de "Viver a Vida", e diz que seu grande prazer na profissão é poder fazer o maior número de papéis diferentes.

iG: Seu personagem aparece quase todos os dias entre os assuntos mais comentados nas redes sociais. Você esperava repercussão tão grande?

Mateus Solano: Não esperava, não comecei o personagem pensando nisso, mas sabia que ele foi escrito pra ser um sucesso. As tiradas, a graça, o jeito extrovertido, tudo isso está no texto do Walcyr Carrasco. Nada é improviso, ou seja, eu só tinha duas opções: acertar ou acertar. Tanto que estava tenso para assistir ao primeiro capitulo, porque queria ter certeza de que acertei no tom.

iG: Muita gente está reproduzindo bordões do seu personagem, como 'pelas contas do rosário', e perfis como 'Félix Maléfica' surgem todos os dias no Twitter e no Facebook. Como você recebe estas 'homenagens'? Acompanha estes perfis?

Mateus Solano: Acompanho tudo, estou muito feliz com a repercussão! Acho incrível quando as pessoas me mostram novas frases, novos perfis, e estou esperando pra ver se Walcyr vai aproveitar algumas dessas sugestões nos textos do Félix. Fico muito feliz com essa homenagem.

iG: O Félix leva vida dupla, esconde sua sexualidade, em parte por conta do relacionamento conturbado com o pai, que já afirmou ter 'trabalhado para que Félix não fosse gay'. Você acha que esse tema vai ajudar a levantar o debate da homofobia dentro de casa? 

Mateus: Não é uma preocupação minha que isso aconteça, mas fico feliz que este seja um dos efeitos. O texto do Walcyr Carrasco é muito corajoso por colocar pela primeira vez alguém falando que ‘opção sexual’ não é o jeito certo de se referir à sexualidade, que é uma condição sexual. Como Félix disse pra Edith, ele não escolheu ser como é. É algo novo em novelas, em uma sociedade heteronormativa. A minha preocupação é reproduzir a paixão que tenho pela minha profissão, mas fico muito feliz em estar representando esta parte da sociedade. Mesmo sem novela, esses assuntos estavam borbulhando, com esse lance do Marco Feliciano (deputado eleito pelo PSC-SP, conhecido por suas declarações de cunho homofóbico e racista).

iG: O Félix é um personagem homossexual ou bissexual?

Mateus: Acho que essas definições querem setorizar algo que é ‘insetorizável’. Nossas opções e escolhas, as coisas que vamos curtindo ou ‘descurtindo’, podem acontecer de forma muito mais livre, não dá pra botar nome em tudo o que a gente sente. Por exemplo, eu posso tentar te explicar como faço a preparação para um personagem, mas é uma experiência muito pessoal, tudo é muito subjetivo. Tenho inúmeros amigos que se casaram com mulheres, tiveram filhos e depois se descobriram homossexuais, assim como outros que tiveram experiências com os dois sexos e depois descobriram que gostam mais de um, e outros ainda que gostam igualmente dos dois sexos. É muito limitador querer colocar as opções e experiências de uma pessoa em alguma sigla.

Tenho inúmeros amigos que casaram com mulheres, tiveram filhos e depois se descobriram homossexuais, assim como outros que tiveram experiências com os dois sexos e depois descobriram que gostam mais de um, e outros ainda que gostam igualmente dos dois sexo."


iG: Você acha que um vilão homossexual nas condições em que o Félix se encontra pode contribuir para uma visão mais "humanizada", menos estereotipada desse segmento da população? Você acredita que isso ajude a combater a homofobia?

Mateus: Não acho que o fato dele ser vilão faça com que essa visão seja mais ou menos estereotipada. O mérito é da direção da novela, da preparação de elenco, do Mauro Mendonça Filho, do Wolf Maia, que são os responsáveis por criar um tom crível ao personagem, pra que ele não seja caricato. O Félix é mais teatral, gosta de aparecer, de chamar a atenção do pai, assim como muitas pessoas na vida real, então não é o fato dele ser vilão que humaniza o personagem, mas os diálogos, como os que ele tem com a Edith sobre sua sexualidade. Aliás, ele não ser aceito é uma das razões por ele ser tão mau assim.

iG: De que maneira você acredita que o Félix pode contribuir para a discussão de que a sexualidade das pessoas não define e não está relacionada com o caráter?

Mateus: É um trabalho meu e dos outros dois atores que interpretam personagens homossexuais em "Amor à Vida". Cada um tem suas características, mostrando que os homossexuais podem ou não ser afetados, podem estar bem ou não em relação à própria sexualidade. Aliás, quero aproveitar pra dizer que fiquei muito impressionado, de forma positiva, com o texto que o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) fez sobre o personagem. Ele destrincha o Félix de uma maneira perfeita, com um conhecimento de causa impressionante. Vale a pena as pessoas lerem este artigo, porque ele é muito esclarecedor, muito inteligente. Me deixou emocionado e ainda mais motivado para continuar com o personagem.

TEXTO DE JEAN WYLLYS: EM NOME DO PAI - PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DO FELIX 

Divulgação/Rede Globo
Na novela "Amor à Vida", Felix (Mateus Solano) é casado com Edith (Bárbara Paz)


iG: Você acha que já está na hora de um beijo entre dois homens nas novelas brasileiras?

Mateus: Essa é uma questão sobre o que é interessante ou não para a TV. Enquanto tivermos um país onde quando um beijo gay for transmitido mais gente vai mudar de canal do que permanecer para assistir, esse beijo entre dois homens não vai acontecer, é uma questão de Ibope. Se acontecer nessa novela, vai ser tratado com muita naturalidade, en passant, sem ser alardeado. Claro que a mídia vai dar muita importância pra isso, mas se acontecer em "Amor à Vida", será algo leve.

Jean Wyllys destrincha o Félix de uma maneira perfeita, com um conhecimento de causa impressionante. Me deixou emocionado e ainda mais motivado para continuar com o personagem."


iG: Você é a favor do casamento gay e da adoção de crianças por casais do mesmo sexo?

Mateus: Sou a favor, claro! Inclusive participei de um casamento de um grande amigo meu no ano passado, e foi um dos casamentos mais bonitos que já vi. Durante a cerimônia, o pai de um dos noivos disse que foi difícil no começo, mas que hoje aceita normalmente, e como isso é bonito. Concordo com a adoção também, e não vejo prejuízos para as crianças criadas por casais gays, mesmo porque acho que mesmo num casamento gay sempre tem um que assume um papel mais masculino e outro um papel mais feminino. Você acaba definindo esses papéis, um que dá mais carinho e cuidados, outro que impõe mais limites, que é rígido, como acontece em casais de sexos diferentes.

iGay: Você acredita que a ficção pode influenciar positivamente na construção de uma sociedade mais justa, ou que a arte não tem de ter esta preocupação social?

Mateus: Acho que a arte deve ter essa preocupação, de tocar quem está assistindo, de fazer com que o espectador entre de um jeito e saia de uma forma diferente, que saia com uma pulga atrás da orelha, com vontade de experimentar algo novo. Quando uma pessoa na platéia da minha peça no teatro vem me falar que sentiu-se tocada pelo espetáculo, que a fez pensar algo novo, diferente, eu posso dormir tranquilo. Na televisão nem sempre isso acontece, porque a TV tem a preocupação com o Ibope, com a audiência, e nem sempre quer fazer pensar e discutir  temas polêmicos. Já a novela das 9h é um espaço muito poderoso, e muitos autores têm essas preocupações, como Manoel Carlos, Walcyr Carrasco, Glória Perez.

iG: Quando aceitou interpretar o Félix, você sabia que um personagem homossexual, ainda mais um vilão, levantaria debates na sociedade. Isso foi um motivo a mais para aceitar o papel ou não teve influência na sua decisão?

Mateus: – Com certeza isso foi mais um motivo pra eu aceitar o personagem, e não só por discutir essas coisas, mas pela novidade. Sempre que me perguntam que personagem eu sonho em fazer, sempre digo que quero fazer papéis diferentes, e um vilão gay em telenovelas é algo novo, inédito, e foi bem determinante pra eu aceitar interpretar o Félix. Agora, acredito que debater esses assuntos é importante, eu acredito na função social do meu trabalho.

Acho que a arte deve ter essa preocupação, de tocar quem está assistindo, de fazer com que o espectador entre de um jeito e saia de uma forma diferente, que saia com uma pulga atrás da orelha, com vontade de experimentar algo novo . Acredito na função social do meu trabalho."


iG: Casos de homens casados que têm relações extraconjugais com outros homens são muito comuns. O que você acha que leva um homem a viver uma vida dupla como a do Félix? Neste papel, você está conseguindo ter noção do sofrimento que é ter de viver  seus afetos escondidos, 'no armário'?

Mateus: Eu tento medir o sofrimento dessas pessoas, mas só sabe mesmo quem sente. Boa parte das maldades do Félix tem origem nisso, no fato dele ter de esconder sua sexualidade do pai, da sociedade. Se perguntarem para ele se ele é gay, ele vai negar, mesmo dando toda aquela pinta, como todo aquele jeito espalhafatoso. A violência contra os gays e estas opiniões antiquadas de que os gays vão ‘destruir a família’ são terríveis. O que destrói uma pessoa é não aceitá-la como ela é! Se você reprime a sexualidade, ela não se desfaz, ela continua crescendo em algum lugar e em algum momento explode de alguma forma. No caso do Félix, ela se transforma em maldade, em vilania. Muita ‘bicha má’ por aí é fruto dessa frustração.

A violência contra os gays e estas opiniões antiquadas de que os gays vão ‘destruir a família’ são terríveis. O que destrói uma pessoa é não aceitá-la como ela é. Muita bicha má por aí é fruto dessa frustração."


iG: Que recado você deixaria para um jovem homossexual que sofre homofobia e tem sua afetividade reprimida dentro de casa?

Mateus: Eu desejo a ele toda sorte e toda a coragem do mundo. A gente vive numa sociedade que parece mais homofóbica do que antes, mas acho que isso é consequência dessas questões que estão sendo levantadas, essas questões que estão saindo do armário. É importante lutar por quem você é de verdade, não vale a pena você se colocar dentro do armário, então o caminho é ter coragem, força e inteligência pra lidar com essa questão. O caminho da sinceridade com a família e com a sociedade é muito importante, e se alguém, mesmo que sejam seus pais, não te aceitam, o problema é deles. Quem vai perder um tempo importante de convivência e quem vai sofrer no final são eles.

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