No Dia Nacional da Visibilidade Trans, o iGay conta as histórias de transexuais que sofrem constrangimentos públicos diariamente por não ter sua identidade feminina reconhecida legalmente pelo Estado

Nascida no corpo de um homem, a modelo carioca Felipa Tavares foi percebendo desde a infância que a sua identidade era feminina. Hoje, aos 27 anos, ela tem a convicção de que é uma mulher, inclusive se veste e se porta como tal. No entanto, o seu RG ainda contraria o que ela sente, a identificando como uma pessoa do sexo masculino. Mas esta incoerência está prestes a ser corrigida. Na próxima sexta feira (31), Felipa vai ter finalmente os seus documentos alterados.  

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Foram oito meses de espera até que o processo judicial fosse concluído. “Vou me chamar Fernanda Tavares. Mas o Felipa vai continuar como nome artístico”, conta a modelo, que comemora a conquista. “É a melhor sensação do mundo. É muito importante fazer essa mudança no documento. Me sinto segura agora e sem medo passar por constrangimentos”.

Assim como Felipa, diversas transexuais brasileiras enfrentam o demorado processo jurídico para trocar o nome de batismo pelo outro que elas escolheram. Além representar reconhecimento de uma identidade própria, o documento alterado também evita a série de constrangimentos dolorosos citados pela modelo.

Felipa Tavares ao iG Gente: "Se for só beijinho, não falo que sou transexual"

“Mudar o nome tem um peso enorme. Estou cansada de chegar aos lugares e começar a ser desrespeitada no minuto seguinte depois que eu apresento o meu RG. Uma vez no banco, o gerente pegou meu documento, chamou os colegas e começou a dar risada apontando para mim”, desabafa Felipa, relatando apenas um dos inúmeros constrangimentos que já passou.

Mudar o nome tem um peso enorme. Estou cansada de chegar aos lugares e começar a ser desrespeitada no minuto seguinte depois que eu apresento o meu RG (Felipe Tavares)

Como o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) não contabiliza os transexuais no censo, ainda não há números exatos sobre a porcentagem que eles representam no total da população brasileira. Mas dados do SUS (Sistema Único de Saúde) fornecem uma pista da situação, ao mostrar que são realizadas diariamente no Brasil duas cirurgias de mudança sexo.

Embora tenha esse desejo, Felipa ainda não conseguiu fazer a mudança de sexo. Mas a alteração nos documentos lhe dá mais ânimo para enfrentar esta etapa fundamental no seu processo de mudança de identidade.

A advogada Luisa Helena Stern que já venceu as barreiras burocráticas da mudança de nome no RG
Arquivo pessoal
A advogada Luisa Helena Stern que já venceu as barreiras burocráticas da mudança de nome no RG

A advogada Luisa Helena Stern , 47, já venceu tanto o processo jurídico quanto o médico. “Ter o seu nome no RG é uma grande conquista. Tirar a certidão de nascimento com o nome novo, aquele que te representa, é como nascer de novo, só que desta vez, do jeito certo”, constata Luisa, que vive em Porto Alegre.

Luisa relata que o processo de mudança do RG acelerou quando ela fez a mudança de sexo. “Quando entrei na justiça, eu ainda não havia feito a cirurgia e notei que o juiz protelou ao máximo a alteração no documento para que ambas as coisas acontecessem juntas”, observa a advogada, que realizou as duas modificações em 2012. 

Acompanhando atualmente oito casos de transexuais que querem mudar de nome, o advogado Eduardo Mazzilli conta que a duração do processo jurídico varia muito nas diferentes regiões do Brasil. Em São Paulo, todo o trâmite costuma levar em torno de quatro meses, mas em outro estados, o tempo total pode ser dez vezes maior, chegando a quatro anos.

“Há relatos de casos de transexuais que não conseguiram lidar com o preconceito e se mataram durante o processo da troca de sexo e até do nome”, revela Mazzilli.

Apesar da demora, o advogado diz que juridicamente o processo é simples, o que acaba prolongando o tempo é a quantidade de documentos exigidos. “É necessário apresentar desde RG e CPF até documentos relativos a ações penais, assim como o documento de alistamento militar. Algo que muitas delas não têm porque não tiveram coragem de se alistar”, aponta Mazzilli. Felipa, por exemplo, teve que passar por nove cartórios para conseguir todos os papéis necessários para dar entrada nos trâmites legais.  

Ter o seu nome no RG é uma grande conquista. Tirar a certidão de nascimento com o nome novo, aquele que te representa, é como nascer de novo, só que desta vez, do jeito certo (Luisa Helena Stern)

“Para mudar o RG, é preciso demonstrar para o juiz que a transexual usa o nome feminino no dia a dia. Isso pode ser comprovado com perfis em redes sociais e até documentos que comprovam a participação em palestras”, exemplifica o advogado. “A mudança de sexo é mais complicada, exige laudos médicos e a realização da cirurgia em si, que já é muito difícil” completa.

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Numa tentativa de encurtar o tempo da burocracia, a Centro de Referencia em Direitos Humanos do Pará criou a Carteira de Nome Social, também conhecido como Carteira Trans, documento para transexuais e travestis que é válido em todo o estado, nos ambientes estatais e privados. Não é necessário de medida judicial para requerê-lo, basta apenas que a (o) interessada (o) compareça ao órgão paraense.

Bruna Lorrane de Andrade, coordenadora do Centro de Referencia em Direitos Humanos do Pará que ajudou a criar a Carteira Trans
Divulgação/ Arquivo Pessoal
Bruna Lorrane de Andrade, coordenadora do Centro de Referencia em Direitos Humanos do Pará que ajudou a criar a Carteira Trans

“Este documento foi desenvolvido no Rio Grande do Sul, vimos o projeto e aprimoramos. Lá, ele deve ser apresentado junto ao RG, o que acaba não ajudando muito. No Pará, conseguimos contemplar todos os dados como RG e CPF, permitindo a identificação civil sem ferir a identificação social, que é como a pessoa se percebe”, avalia Bruna Lorrane de Andrade , 25, transexual que coordena o centro de referência.

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Além de preencher a lacuna dos poderes judiciário e legislativo em relação aos direitos dos transexuais, o documento paraense pretende reduzir problemas causados por esse não reconhecimento da identidade, como é o caso das trans que abandonam os estudos por conta dos constrangimentos sofridos na escola. “Esperamos que isso acabe com o estigma de que o transgênero é marginalizado, que vive sempre de prostituição”, projeta Bruna.

Além do Pará e do Rio Grande do Sul, o Rio de Janeiro também fornece carteiras de nome social para transexuais.  

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