Em entrevista ao iGay, psicólogo Klecius Borges fala sobre o comportamento do personagem e do livro que acaba de lançar, “Muito Além do Arco-Íris – Amor, Sexo e Relacionamentos”

Há dez dias no ar na TV Globo, a novela “Amor à Vida” teve em sua primeira semana uma cena emblemática de seu personagem mais polêmico, o vilão gay Felix Khoury, interpretado por Mateus Solano . Confrontado pela esposa após ser flagrado em um encontro romântico com um amante, Félix mostrou humanidade e sinceridade ao falar de sua sexualidade mal resolvida.

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Mesmo consciente de sua homossexualidade, o personagem confessa que tentou reprimir o seu desejo por homens e que não que consegue se aceitar como gay. “Eu batalhei para mudar, eu nunca quis ser desse jeito. Eu tive namoradas, eu nunca frequentei lugares gays. Meu pai, você sabe. Família libanesa, machão. Eu queria ter uma família, eu queria poder mostrar para ele. Olhar e dizer para ele: Eu sou igual a você”, desabafou Félix.

O psicólogo Klecius Borges
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O psicólogo Klecius Borges

O conflito vivido por Félix na novela não é uma situação apenas da ficção, pelo contrário. Segundo o especialista em terapia homoafetiva Klecius Borges , muitos gays são homofóbicos e tem aversão da sua própria homossexualidade, sofrendo com a situação.

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”A cena reproduz o enorme sofrimento de ambas as partes. Ela, por se sentir traída, usada e enganada. Ele por se desnudar e ser obrigado a confrontar seus próprios sentimentos: de vergonha de sua natureza afetivo-sexual, culpa por fazê-la sofrer e medo do que poderá vir pela frente. A perda dos privilégios da heterossexualidade, as consequências familiares e sociais”, analisa o terapeuta.

Borges, que atua numa área da psicologia chamada de terapia afirmativa, está lançando o livro “Muito Além do Arco-Íris – Amor, Sexo e Relacionamentos” (Edições GLS), que trata justamente desta e de outras questões da homossexualidade.

Em entrevista ao iGay, o especialista fala da importância que tem os exemplos positivos para diminuir a homofobia internalizada nos homossexuais, entre outros assuntos.

iG: Muitos gays têm dificuldade em aceitar sua homossexualidade ao ponto de serem homofóbicos?

É impossível ser gay e não ter algum tipo de homofobia internalizada

Klecius Borges: É impossível ser gay e não ter algum tipo de homofobia internalizada. Se a gente entender, é claro, homofobia como eu entendo. Homofobia é um conjunto de imagens, ideias e valores a respeito de ser homossexual. Não é só o ódio, o crime, isso é outra manifestação. E porque é impossível não ter essa homofobia internalizada? Porque desde sempre temos padrões heteronormativos, o diferente é sempre algo negativo, você passa a vida ouvindo que o normal, que o correto é ser heterossexual. De forma inconsciente, mesmo que assumido, notamos em pequenas situações homofobia. Um dia desses perguntei para um paciente: ‘Mas esse rapaz de quem você está falando é gay?’. E ele me respondeu: ‘Não, ele é homem’. Como se ele deixasse de ser homem por ser gay. É isso que acontece com Felix em Amor à Vida.

Livro retrata o universo de relações entre gays e lésbicas
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Livro retrata o universo de relações entre gays e lésbicas

iG: Mas como se resolve esse problema de aceitação? É preciso trabalhar a autoestima dessa pessoa?
Borges: Qualquer autoestima se dá através do espelhamento. Qualquer pessoa na mídia que tem atributos positivos e que seja gay, gera um bom espelho. Isso é fundamental, e há pouco tempo atrás não tínhamos isso. Todas as representações que tínhamos eram muito negativas, o público gay precisa se ver representado. No Brasil, a novela é um dos grandes espelhos, que vai primeiramente gerar uma referencia positiva e depois mostrar para a sociedade heteronormativa que a visão dela do mundo gay nem sempre é a correta. O mesmo vale para as celebridades que se assumem gays. A Daniela Mercury é um exemplo. Porque ela não é marginalizada, ela tem sucesso, se apresenta ao público como gay, como uma pessoa que tem uma família que a apoia.

iG: Mas como como se dá esse reforço positivo na terapia homoafetiva?

Borges: Meu trabalho é conhecido, na verdade, como terapia afirmativa. Que não é uma linha teórica, mas uma postura do profissional que vai ser afirmativa diante das identidades sexuais. Eu não vou olhar para os acontecimentos com uma visão heteronormativa. É preciso se preparar para entender esse grupo, só assim você pode ajudar. O termo homoafetivo, cunhado pela Dra. Maria Berenice Dias , serve para tirar a ênfase sexual das questões. Ele é usado para tratar as relações interpessoais e afetivas entre homossexuais, não apenas o sexo.

iG: De maneira geral, qual é o principal problema dos pacientes que vão ao seu consultório?

Borges: São temas que envolvem os relacionamentos, até por esse motivo escrevi o livro. Porque diferentemente de quando eu comecei, hoje eu atendo muito mais pessoas querendo falar sobre suas relações. Antigamente, a aceitação da homossexualidade era o tema mais recorrente. Atualmente, os pacientes contam com o auxilio da internet, da literatura. A homossexualidade não é um tabu como antes. Quem chega até mim, não quer dar explicações, especificar o que acontece no mundo gay.

iG: Nestas questões sobre relacionamento, gays e lésbicas têm problemas parecidos ou diferentes?

Borges: Entre os casais gays masculinos, o problema é que muitas vezes eles querem seguir os modelos heteronormativos. Então acabam tendo dificuldade em seguir um padrão de relações monogâmicas, de fidelidade. Homens também se preocupam em fazer sexo demais ou menos do que gostariam. No caso das mulheres, existe a questão delas desenvolverem frequentemente uma intimidade afetiva muito rapidamente com as parceiras. Isso acaba gerando confusão, conflitos, ciúmes e posse.

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“Muito Além do Arco-Íris – Amor, Sexo e Relacionamentos”, de Klecius Borges. Edições GLS, 112 páginas.

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