O casal André e Angelo Nunes esperou mais de um ano para adotar Jonathan e Valentina. Neste período, a menina se curou de uma pneumonia grave e a felicidade dos quatro só aumentou

O casal André Nunes , 38, e Angelo Nunes , 40, recebeu a reportagem do iG quando o dia já começava a escurecer. A casa deles, situada na Zona Sul de São Paulo, estava tranquila e quase silenciosa. Mas em poucos minutos, tudo mudou e uma alegria barulhenta se estabeleceu. Os responsáveis pela mudança foram os filhos da dupla, Jonathan Nunes , 4 anos, e Valentina Nunes , 2 anos, que chegaram de van escolar.

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Essa injeção de alegria tem sido diária na vida do casal desde 21 de outubro de 2010. Nesta data, que André e Angelo dificilmente esquecerão, os irmãos Jonathan e Valentina chegaram para ficar, dobrando o tamanho da família Nunes. “A gente era feliz e agora a gente é muito mais feliz”, respondem os dois, quase em coro, orgulhosos em ocupar duplamente o posto de pai.

Adotar um filho era vontade de ambos, mas foi Angelo quem marcou posição para que a ideia finalmente se concretizasse. “Um dia chegou um e-mail dele para mim, dizendo: ‘Se você quer adotar uma criança, a hora é agora. Logo eu vou fazer 40 anos e não vou querer mais’. Eu nem argumentei, não pensei um segundo e respondi: ‘Vamos nessa’”, lembra André.

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Inicialmente, eles pretendiam adotar apenas uma criança, que seria Jonathan. Mas eles descobriram que ele tinha uma irmã, Valentina, que estava hospitalizada com uma pneumonia forte. Angelo e André foram visitá-la e saíram do hospital com a certeza que as duas crianças seriam suas filhas.

Na entrevista que você lê a seguir, o casal fala mais sobre o processo de adoção e sobre o grande dia da chegada das crianças, que acabou acontecendo inesperadamente. Essa surpresa obrigou Angelo e André a correrem ao shopping para fazer compras antes de levarem Jonathan e Valentina para casa.

iG: Quando vocês pensaram em adoção esperavam encontrar problemas por serem um casal gay?
André Nunes: Começamos a nos informar, eu fui até o fórum da região onde moramos e a documentação que nos foi pedida era exatamente a mesma que a solicitada para qualquer pessoa. Na verdade, nem é preciso ser um casal. Se você tem mais de 18 anos e tem condições financeiras, está apto a se inscrever para adoção. Se você vai ser aprovado ou não no cadastro, isso já é outra história.

‘Se você quer adotar uma criança, a hora é agora. Logo eu vou fazer 40 anos e não vou querer mais’. Eu nem argumentei, não pensei um segundo e respondi: ‘Vamos nessa’ (André Nunes)

iG: Como Jonathan e Valentina entraram na vida de vocês? 
André: Nós encontramos primeiro o Jonathan. A Valentina estava internada no hospital, com um quadro de pneumonia muito forte e os médicos nem acreditavam que ela fosse sair dessa situação. Nós éramos voluntários em um abrigo de Diadema (SP) e a diretora de lá nos indicou alguns lugares similares para visitar. Na época, nós queríamos adotar uma criança, uma menininha de seis meses. Queríamos acompanhar todos os passos.

Angelo Nunes: ( interrompendo ) Você não pode escolher a criança nem nada disso. Eles é que te chamam e dizem que encontraram alguém no perfil compatível com o que você cadastrou para adoção. A gente foi para ficar próximo de crianças, para ir sentindo o clima e não para ver qual delas nós queríamos.

André: Estávamos prestando ajuda neste abrigo e eu percebi uma criança. Eu falei para o Angelo: 'Olha aquele menino que lindo, é a sua cara'. Ele achou que eu estava viajando, que estava sendo levado pelo entusiasmo. Passou, mas eu fiquei com aquilo na cabeça. Dias depois, a diretora do abrigo ligou pra gente perguntando se queríamos conhecer a irmã do Jonathan. Nós fomos conhecer a Valentina pequititica, era recém-nascida, não tinha nem certidão de nascimento ainda. E o que aconteceu foi que ficamos com vontade de adotar os dois.

IG: Como foi o processo de adoção do Jonathan e da Valentina, vocês encontraram muitas complicações?
André:
Sim. Foram dois grandes empecilhos, na verdade. Primeiro, as crianças não haviam sido destituídas do pátrio poder. E uma criança só esta apta para adoção depois que todo esse processo se completa. Então, nós tivemos que esperar. O segundo problema é que ainda não estávamos cadastrados no fórum local. Fomos resolver essa questão com medo de perder as crianças para outro casal. Mesmo assim, não perdemos o contato com eles. Ficamos dois meses convivendo com os dois, aguardando os tramites burocráticos. Mas depois disso, por conta de mais burocracia, tivemos que deixar de visitá-los por 10 meses. Contratamos até um advogado para nos ajudar, porque estávamos muito apegados a sabíamos que não tínhamos muito tempo. Mas tudo acabou dando certo. No dia 21 de outubro de 2010, eles finalmente chegaram em casa.

Angelo: Dois dias antes do aniversário do André, foi o presente de aniversário dele.

iG: Como foi esse grande dia de finalmente realizar um sonho de vocês? 
André: O procedimento normal é que os pais busquem as crianças no abrigo, mas a juíza preferiu que as buscássemos no fórum. Quando a gente chegou para buscar os dois tivemos uma surpresa com a Valentina, ela tinha crescido muito. E o Jonathan estava um pouco arisco e não nos reconheceu porque ficamos um tempão afastados. Enquanto o Angelo ficou com a Valentina no colo, conversando com a assistente social do fórum e com a psicóloga do abrigo, eu peguei o Jonathan pela mão e comecei a brincar com ele pelos corredores. Em pouco tempo ele estava agarrado no meu pescoço e não me soltava mais.

iG: Vocês já estavam totalmente preparados para recebê-los em casa?
Angelo: Não. Naquela dúvida se eles viriam ou não, nós só tínhamos os dois berços comprados e algumas roupas, que acabaram ficando pequenas porque eles cresceram muito durante os meses de espera.

Andre: Quando soubemos que eles viriam para casa, não deu nem tempo de correr para comprar nada. Lembro como se fosse hoje, foi numa quarta, num final de tarde, quando nos ligaram. Na quinta, eu tinha gravação o dia inteiro, nesse momento não podia ir um só buscá-los, tinha que ser os dois. Acabou que nós tivemos que ir na sexta, sem ter tempo de preparar nada. Nós buscamos as crianças no fórum, saímos de lá às 13h30, e antes de ir para casa, tivemos que correr até o shopping. Nós compramos roupa, mamadeira, chupeta, sapato, brinquedo, compramos o que tinha que comprar.

Angelo: Sabe o que foi engraçado? A gente na praça de alimentação. Um perguntando pro outro 'Como a gente faz?'. Compramos papinha na farmácia e um pouquinho de arroz e feijão amassadinho para o Jonathan. A gente não conseguia fazê-los comer. Parecia que todo mundo olhava pra gente, não por serem dois homens com duas crianças, mas acho que eles pensavam “eles não sabem alimentar as duas crianças!”. Nós dois riamos muito e estávamos todos sujos de comida.

Parecia que todo mundo olhava pra gente, não por serem dois homens com duas crianças, mas acho que eles pensavam “eles não sabem alimentar as duas crianças!”. Nós dois riamos muito e estávamos todos sujos de comida (Angelo Nunes)

iG: Quando vocês se sentiram preparados para colocar as crianças na escola?
André:  Depois que eles chegaram em casa, ficaram 6 meses sem ir para o colégio. Eu passei a trabalhar em casa para integrá-los, aquela coisa mesmo de 'Eu sou seu papai, essa é sua casa, você pode confiar, não precisa ter medo'. Na época, tínhamos uma babá, mas era como se eu estivesse numa rotina de escritório mesmo. Almoçava bem rapidinho para poder ficar com eles um pouco. Quando algum deles acordava, a babá me chamava e eu ia lá tirar ele do berço para brincar. Às vezes, eu ia dar a mamadeira.

Angelo : Eu fiquei muito atento e liguei para muitas escolas. Pesquisei vários métodos e tive conflitos. Eu não queria que eles fossem pra uma escola que tivesse Dia das Mães e Dia dos Pais, queria uma escola que trabalhasse com o Dia da Família. Então eu comecei a perceber que eu não podia fugir dessa situação, eu tenho mãe, o André tem mãe, eles não têm mãe, mas eles têm pais e vão aprender a lidar com isso. Quando eu liguei para a escola deles eu liguei ainda focado nessa questão, perguntei se eles comemoravam essas datas, se eles já tinham recebido pais gays. O que eu tive de resposta foi que eles comemoram de uma maneira simples, eles fazem um presentinho e quem não tem mãe presenteia a madrinha, a avó, quem eles quiserem. Eu comecei a entender isso de outra forma, percebi que não tinha como correr de uma situação que o mundo apresentava.

Ele começou a chamar o André de “papia”. Uma criança de 2 anos resolveu um problema que dois homens de trinta e poucos anos não conseguiram resolver (Angelo)

IG: Como é a relação de vocês e seus filhos com as outras crianças e pais?
Angelo:
Eu tenho uma leve impressão que na escola é muito legal ter pais gays como amigos. Eu vejo que lá as pessoas nos abordam perguntando 'Vocês que são os pais do Jonathan e da Valentina?'  e respondem 'Que legal!'. Nos fomos nas festinhas deles de final de ano e fomos super bem tratados por todos os pais dos coleguinhas.

André: A recepção pela escola e a recepção pelos pais dos alunos foi a mesma. Agora, eu acho que não despertamos o preconceito porque não permitimos que isso acontecesse Quando você se deixa abater, se coloca no papel de vítima. Não somos vítimas, nunca vamos ser. Em relação às outras pessoas, eu sinto muito mais a curiosidade de saber como é a nossa família do que estranheza

. Angelo: Talvez a gente sinta um pouco mais quando as crianças forem adolescentes, quero acreditar que não vão passar por isso, mas vai acontecer. Os negros passam, quem usa óculos passa, quem é gordo, quem e magro demais e todo mundo acaba passando por uma situação assim na escola. Eu acho que temos que preparar eles para estarem confortáveis em falar 'Eu sou assim e sou feliz assim'. Eu brinco com eles com os bonequinhos e ensino, esse bonequinho tem dois pais, esse tem duas mães, essa tem uma mamãe e um papai, esse ursinho só tem uma mamãe. Triste mesmo é não ter ninguém, crescer sozinho, sem acolhimento e sem carinho. Se eles têm 10 pais ou 20 mães, isso não é realmente um problema.

A família Nunes se diverte em sua casa na Zona Sul de São Paulo
André Giorgi
A família Nunes se diverte em sua casa na Zona Sul de São Paulo


iG: Um fator que dissemina o preconceito é a ideia de que a criança necessita de referências masculinas e femininas dentro de casa. Como vocês lidam com isso?
Angelo:
Eu não acho que a figura masculina tenha que coexistir com a feminina. Nem acho tão necessário que você busque uma figura feminina em uma tia ou avó. A gente ouviu isso de uma psicóloga no fórum. Ela perguntou se tinha alguma avó morando perto ou alguém para eles buscarem uma figura feminina. Para que precisaria? As figuras masculinas e femininas estão dentro da minha casa, eu tenho um filhinho e uma filhinha. Eles convivem juntos, vão na escola onde só há professoras, tem as avós que visitam sempre.

iG: Como essa situação é trabalhada com as crianças dentro de casa?
Angelo: Se eu pudesse ver essa situação de fora, diria que eu represento mais o pai e o André a mãe. Eu sou mais enérgico com as crianças, eu que coloco de castigo e sou o bravo. O André é bom, muito carinhoso, amoroso e acolhe muito bem a família. Eu preciso colocar os três no eixo (risos). O André não esta gostando muito! (gargalhadas). Nós formamos um time. Por exemplo, de manhã, a André dá banho na Valentina, enquanto eu corro para o outro banheiro e dou banho no Jonathan. A gente não tem essa coisa de divisão de tarefas, somos uma equipe.

Tem os momentos de brincadeira, tem os momentos de chatice, tem a hora de falar sério, é absolutamente igual a qualquer outra relação.

iG: Como eles chamam vocês? Existe uma confusão de papais?
Angelo: A gente acha essa a melhor parte da nossa história. Quando estávamos com o processo de adoção, foi aconselhado por uma psicóloga que tivéssemos uma distinção de nomes ao invés de dois pais. Por exemplo, um é padrinho e o outro papai. Ela deixou claro que nenhum dos dois seria mais pai do que o outro só pela questão do nome. Eu cheguei no carro e falei pro André: “Ela me falou isso, mas não pode ser assim porque eles são tão seus filhos quanto meus, vai ser papai Angelo e papai Andre!”. Quando eles chegaram, o Jonathan chamava a gente de tio, no abrigo era assim que ele tratava todo mundo. Aquilo me matava, mas eu atendia. O André começou na mesma hora a falar que não é tio, mas pai. Eu não tinha coragem, não queria forçar ele a me chamar de pai, então tudo bem, eu já tinha entendido que eu seria o tio e o André. Com o tempo, ele começou a chamar os dois de papai, até um determinado momento que ele chamou o papai e os dois responderam. Isso o deixou confuso. Mas no dia seguinte, ele começou a chamar o André de “papia”. Uma criança de 2 anos resolveu um problema que dois homens de trinta e poucos anos não conseguiram resolver (risos)

iG: Uma pesquisa do Ibope revelou que 55% dos brasileiros são contra a união estável e a adoção de crianças por casais homossexuais. Como vocês respondem a isso?
André: O que eu tenho pra dizer a eles é a questão não está na sexualidade. A questão toda esta na sua habilidade de amar alguém e se preocupar com outra pessoa. No momento que você tem amor, preocupação e respeito dentro de você, o resto se torna simples. Tem os momentos de brincadeira, tem os momentos de chatice, tem a hora de falar sério, é absolutamente igual a qualquer outra relação.

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