Fanática pelo Atlético-MG cria primeira torcida virtual ‘colorida’ do País para brigar contra o preconceito nos estádios. Torcedores do Cruzeiro, Internacional, Corinthians e Palmeiras seguem exemplo

No último 4 de abril, o Atlético-MG deu um baile no adversário e venceu o Arsenal por 5 a 2, na disputa pela Copa Libertadores. Torcedora do Galo desde criancinha, Milene, 23 anos, estava no estádio na data da vitória atleticana. Apesar do êxito do seu time, ela não saiu nada satisfeita com o que viu da arquibancada.

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“Foi a primeira vez que assisti a um jogo depois de ter estudado questões de gênero. Fiquei impressionada. Toda vez que algum jogador do time adversário pegava na bola, o público em peso berrava ‘viaaaaado’ e pairava uma naturalidade, todos corroboravam com aqueles xingamentos”, lembra.

“Refleti e me dei conta de que até quem não tem uma postura homofóbica no dia a dia, parece achar que tem licença para este comportamento em nome do futebol”, diz ela, que usa o pseudônimo Milene por questão de segurança.

Formada em ciências sociais, Milene chegou em casa e resolveu que estava na hora de virar o jogo. Criou a torcida virtual GaloQueer , nome batizado em homenagem à teoria Queer - que defende a orientação sexual como um padrão imposto, construído socialmente.

Milene não tinha grandes expectativas com a atitude dela, que era para ela apenas um protesto pessoal. Mas poucos dias depois da sua criação, a fanpage ‘Galo Queer’, criada no Facebook , já tinha mais de 3,5 mil curtidas e incontáveis compartilhamentos.

No espaço virtual, torcedores de outros times escrevam mensagens apoiando a causa. Até os cruzeirenses – do clube rival do Atlético – parabenizaram a iniciativa.

“Ao mesmo tempo em que este tipo de comentário me emocionou profundamente, eu também recebi por e-mail uma série de ameaças. E olha que eu tomei cuidado de não vincular a página ao meu perfil pessoal por medo de agressões”, observa.

“As pessoas descobriram de alguma forma. Estou insegura, fiquei com medo, mas o movimento está andando de uma maneira bem orgânica, com diversas colaborações, e não deve parar. Tenho vontade de procurar o Atlético-MG para ver se eles apoiam a ideia para que a gente possa sair do computador e chegar ao estádio”.

Cássia Eller virou musa da Galo Queer
Reprodução
Cássia Eller virou musa da Galo Queer

Em uma dessas colaborações espontâneas de torcedores simpatizantes da causa, foi postada uma foto de Cássia Eller com a camisa do time. Lésbica assumida, a cantora torceu pelo Atlético-MG enquanto viveu. Cássia virou assim uma espécie de madrinha (póstuma) da GaloQueer.

A iniciativa de Milene contagiou outros torcedores a criarem fanpages de seus times para combater a homofobia. Assim surgiram as fanpages “Corinthians Livre ”, “Palmeiras Livre” , "QUEERlorado" (Internacional) e “Cruzeiro Anti-homofobia” .

Violência por todos os lados

Futebol, mostra a história, é de fato um espaço de intolerância que vai muito além dos gritos e xingamentos. Jogadores negros são humilhados exclusivamente pela cor da pele, torcedores de times rivais são mortos em brigas e mesmo quando a homossexualidade é só “uma suspeita” as manifestações odiosas também são repetidas.

No começo do ano passado, por exemplo, a Mancha Alviverde – torcida do Palmeiras – exibiu uma faixa com os dizeres ‘a homofobia veste verde’ – em um protesto contra a possível contratação de Richarlyson , volante que fazia e continua fazendo parte do elenco do Galo.

“Passei um tempo morando fora do Brasil e quando voltei preciso dizer que nunca vi a torcida do Galo desrespeitando o Richarlyson”, pontua Milene. “Mas o respeito tem de ser universal, para qualquer um. O esquadrão do Atlético sempre será preto e branco. Porém eu - e um monte de gente - acreditamos que há espaço, e deve sempre existir espaço, para o colorido da diversidade”.

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