“Hoje está claro pra mim que a ausência de personagens que me espelhassem foi um dos motivos centrais pelo qual eu fui fazer cinema”, diz diretor de "Todas as Coisas Mais Simples"

Daniel Ribeiro , 30 anos, está acostumado a receber mensagens de agradecimento. Toda semana chegam e-mails, recados no Facebook, pedidos de amizade, além de curiosas e inventivas homenagens de seus fãs. Sim, fãs. Raridade entre os diretores de cinema no Brasil, ele tem um grupo atuante de admiradores - brasileiros e estrangeiros. E Daniel, veja só, acabou de filmar seu primeiro longa-metragem, ainda nem lançado, "Todas as Coisas Mais Simples" (já incorporado por esses mesmos fãs como #TodasAsCoisas). O que significa dizer que - mais raro ainda -, ele é um diretor conhecido e, em certa medida, venerado, por seus dois curtas-metragens: "Café com Leite" e "Eu Não Quero Voltar Sozinho" (Veja os dois filmes na integra no final da matéria) .

O fenômeno acontece por uma combinação feliz de ideias: os dois curtas têm como protagonistas jovens personagens gays cuja sexualidade é uma questão tratada com simplicidade - tanto quanto seria, por exemplo, nossa preferência por passar requeijão ou manteiga no pão. E ambos os filmes estão no Youtube, tendo mais de 2 milhões de visualizações cada, um alcance que pouquíssimos filmes brasileiros têm em sua vida inteira.

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A relação que centenas de adolescentes (às vezes nem tão adolescentes) têm hoje com o trabalho desse diretor se explica melhor a partir de um flashback. Vamos a ele.

Jack McPhee e Doug em
Divulgação
Jack McPhee e Doug em "Dawson´s Creek" e o primeiro beijo gay na TV aberta nos Estados Unidos

Daniel Ribeiro estava começando sua graduação em Audiovisual na ECA-USP quando Jack McPhee surgiu. Daniel, morador de São Paulo, estudante de cinema, pouco dado a esportes, real. Jack, morador de Massachusetts, estudante da Capeside High, jogador de futebol americano, fictício. A distância entre os dois seria incalculável. Mas uma característica em particular transformou Jack no espelho de Daniel e de milhares de outros adolescentes quando, em 2000, aquele viril e renascentista jovem gringo saiu do armário sendo protagonista do que viria a ser o primeiro beijo entre dois homens na TV aberta nos Estados Unidos, em um episódio memorável da série Dawson’s Creek.

“Em uma primeira fase do cinema nacional, tínhamos sempre a visão negativa e estereotipada do gay, que era quase sempre o vilão, o marginal. (Daniel Ribeiro)

“Lembro que aquilo foi tão importante pra mim que eu falava: ‘Meu, quero fazer isso também, quero mostrar esse tipo de história gay’”. Por “esse tipo de história" ele quer dizer contar tudo da perspectiva de personagens familiares a ele mesmo: meninos que não correspondem às molduras estereotipadas em que a dramaturgia engessa os gays no cinema e na TV. 

Daniel sabe a urgência da mudança no enquadramento dos personagens gays no cinema. Durante seus meses finais de faculdade, se dedicou justamente a estudar a maneira como o cinema nacional lidou com essas pessoas. “Em uma primeira fase, tínhamos sempre a visão negativa e estereotipada do gay, que era quase sempre o vilão, o marginal. Há uma segunda fase, em que se começa a se falar do personagem gay, ainda que colocando a homossexualidade dele como uma questão a ser discutida. E, mais recentemente, vemos uma terceira fase, que é quando o personagem é gay, mas essa é só uma das características dele.”

TRIÂNGULO AMOROSO

O sucesso do segundo curta de Daniel, "Eu Não Quero Voltar Sozinho", aconteceu porque, assim como o diretor se identificou com a história de Jack lá atrás, vários adolescentes (a maioria brasileiros, mas muitos estrangeiros também) viram naquele filme o romance que finalmente entendeu que todo adolescente, independente de orientação sexual, é um ser que, em plena ebulição hormonal, sofre sempre de febres românticas, pueris, idealizadas. No filme, Leonardo (Guilherme Lobo) é um menino cego cuja melhor amiga, Giovanna (Tess Amorim), é secretamente apaixonada por ele. Entra em cena o terceiro elemento, Gabriel (Fabio Audi), um novato no colégio que rapidamente vai despertar em Leo algo completamente inédito.

“Muita gente me escreve esse tipo de coisa: ‘Ah, finalmente um filme que não trata os gays como sexo apenas’. E é isso: no fim das contas, é mais uma história de amor dessa fase da vida, aquela coisa pura e cristalina da adolescência”, explica.

Ainda sem previsão de estreia, seu primeiro longa, "Todas as Coisas Mais Simples" - o primeiro filme brasileiro centrado em adolescentes gays -, é um prolongamento do sucesso de "Eu Não Quero Voltar Sozinho". Partindo do mesmo núcleo de personagens, Daniel acrescentou mais camadas ao trio central e inseriu uma nova personagem feminina para criar tensão maior entre Gabriel e Leo.

Veja abaixo o curta: "Eu Não Quero Voltar Sozinho"

Ciente de que a expectativa com a estreia de #TodasAsCoisas é grande – o que ficou evidente na disputada corrida para escalar o time de figurantes da história –, Daniel sabe que essa empatia que os adolescentes têm com seu trabalho vem da “abordagem de espelho” que ainda faz tanta falta à identidade e visibilidade da comunidade LGBT. “Sempre ficava incomodado com a ausência desses personagens e me perguntava: ‘Será possível que ninguém está mostrando pessoas como eu?´”

Admirador do trabalho de diretores como Sofia Coppola, David Fincher e Wong Kar Wai, ele revela: “Hoje está muito claro pra mim que essa ausência de personagens que me espelhassem foi um dos motivos centrais pelo qual eu fui fazer cinema.”

Veja abaixo o curta : "Café com Leite"

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