Colunista do iGay aceitou a homossexualidade do filho e assumiu papel importante como ativista na luta contra homofobia dentro das famílias e na sociedade

Uma conversa sincera e emocionada com um garoto de 15 anos foi o estopim para o “pé na porta” do closet. Maria Júlia Giorgi , paulistana, mãe de família, irmã mais velha de 5 irmãos, estava com 37 anos quando fez da confidência do filho mais velho o início de sua militância pelos homossexuais.

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Maju, apelido que virou identidade, é casada e heterossexual. Mas entendeu o desabafo do primogênito André como uma espécie de convite. Ele contou para a mãe que era gay. Ela, já ao final da frase do garoto, aceitou oferecer a mão para levantar a bandeira contra a homofobia. Juntos, mãe e filho saíram do armário.

Há 11 anos Maju, 48, assumiu essa missão. Mantém um blog no iGayMaju Giorgi - onde se dispõe a ajudar a transformar a família dos LGBTT (sigla para lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgêneros) em um espaço pacífico, sem violência e que contribua para a igualdade de direitos.

“Muitas vezes é dentro de casa que o homossexual enfrenta os primeiros preconceitos, é marginalizado e entra em profundo sofrimento”, afirma.

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Para romper este ciclo de violência, reproduzido em agressões com lâmpadas em plena Avenida Paulista , em São Paulo, ou em assassinatos de homossexuais em portas de casas noturnas de qualquer canto do País, Maju pede que as “mães dos gays saiam do armário”.

"Você não pode exigir um Estado e um governo justos se tem uma atitude discriminatória dentro da sua própria casa", afirma ela. Não por coincidência, o primeiro palco de atuação de Maju pela causa gay foi a própria família.

Você não pode exigir um Estado e um governo justos se tem uma atitude discriminatória dentro da sua própria casa.


O início

“Meu filho, desde a mais tenra idade, tinha uma sensibilidade incrível. Lembro dele, muito pequeno, dizendo que tal cor não o favorecia”, rememora, com humor. “Há muito tempo convivia com o feeling de que ele era gay. Aos 15 anos, quando ele contou, eu estava preparada. A minha reação foi abraçá-lo e dizer que estávamos juntos naquela empreitada”, diz.

André só precisou contar para a mãe sobre sua homossexualidade. Informar o resto da família ficou por conta de Maju. Apesar de ter sido criada por pais que “sempre defenderam a liberdade de pensamento, escolha da profissão e modo de viver”, ela estava convencida de que precisava assumir uma postura incisiva.

Sabia que para conversar com os parentes teria de ter um discurso firme, bem mais firme do que aqueles que ensaiou para noticiar que mais uma vez tinha repetido de ano na escola, ou quando informou que estava grávida, sem planejar, em pleno segundo ano da faculdade de jornalismo.

“Contava que o André era gay e não permitia nenhuma insinuação ou espaço para comentários maldosos. Quando meu filho chegava para conversar com uma tia ou primo, eu já havia feito todo um trabalho com aquela pessoa, de doutrina mesmo”, conta. “Tanto que na minha família não existe esse clichê de que você pode ser gay desde que pareça macho. Há espaço para posturas afeminadas, para levar namorado em eventos e para o André ser quem ele é de verdade.”

Um espaço para discussão, tirar dúvidas e derrubar mitos

Maju sabe que a atitude acolhedora que teve com o filho não é unanimidade. Entende também que algumas mães não sabem o que fazer com a informação de que os filhos são homossexuais. Por isso, oferece seu blog como um canal para tirar dúvidas, discutir anseios e quebrar mitos.

Meu filho está tão bem que hoje minha luta nem é mais por ele. É pelos muitos que seguem sozinhos, em guetos, vivendo nos bastidores do mundo LGBTT que, infelizmente, ainda é muito violento.

Ela está convencida de que quando as mães acolhem os filhos é formada mais uma película de proteção à violência das ruas. André, hoje com 25 anos, fotógrafo bem-sucedido, cheio de amigos e amor, tem uma marca, completamente inofensiva. “Ele tatuou ‘Let it Be’ no braço. A música (dos Beatles) é nossa. Eu cantava pro Dé e para minha filha Gabi, a Be. Em nossa homenagem, ele transformou em tatuagem”, diz, orgulhosa.

“Meu filho está tão bem que hoje a minha luta não é mais por ele. É pelos muitos que seguem sozinhos, em guetos, vivendo nos bastidores do mundo LGBTT que, infelizmente, ainda é muito violento.”


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