Tamanho do texto

A transexual mais famosa do País não quer cirurgia para mudar de sexo e afirma que gay tem preconceito

O reconhecimento preciso da diferença entre um traço que indica estria e um furinho chamado de celulite. O pulsar dos 35 anos como o apito final para entrar no time da maternidade. A dor de um amor indiferente à importância da discussão da relação. O pavor de baratas e a coragem de realizar mil tarefas ao mesmo tempo. Se estas características creditam ao ser humano o gênero feminino, a humorista  Nany People , 47 anos, é mulher com M maiúsculo.

Veja também: Brasil realiza duas cirurgias de mudança de sexo por dia

Mas definir Nany não é assim tão simples. Em segundos, ela solta uma de suas inúmeras frases de efeito e embaralha tudo. “No ser feminino... a vagina é só um detalhe” , dispara ela, fazendo um gesto teatral no meio da fala para abrir seu leque barulhento, que já é uma marca registrada. Formada em artes cênicas pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a atriz mostra nesse momento que entende muito bem o valor de uma pausa dramática.

Na foto de divulgação da sua peça
Divulgação
Na foto de divulgação da sua peça "Meninas Crescidas Não Choram", Nany People mostra que não tem medo entrar em cena

Puxando pela memória, Nany diz que se reconhece como mulher desde os 4 anos – quando brincava de Cinderela com os irmãos vestidos de cowboys. Apesar de ter nascido com um “errático pênis” no meio das pernas, ela não se enquadra na categoria homossexual e sim como parte do grupo que compõe os transexuais brasileiros.  

Gay tem preconceito com lésbica, que tem preconceito com trans, que fala mal de travesti e ninguém se aceita.

Transexual, a humorista solta a língua para falar mal da chamada cirurgia de mudança de sexo – uma demanda quase unânime ostentada na bandeira que cobre o público trans. Mesmo com a vivência precoce da feminilidade contrastada por um órgão fálico inoperante – “nunca usei a genitália para ter prazer” enfatiza – Nany não gosta do discurso politicamente correto da pauta LGBTT (sigla para lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais), classificado por ela como “chato pra cacete”.

“Gay tem preconceito com lésbica, que tem preconceito com trans, que fala mal de travesti e ninguém se aceita”, afirma. “Está na hora de parar com este discurso que segmenta, exclui e que tenta a todo custo separar as pessoas em prateleiras de supermercado”, prossegue subindo o tom, para em seguida se desarmar com uma provocação. “Se quer saber onde eu me encaixo, então ajudo: sou b-o-n-i-t-a”, concluí, soletrando pausadamente.

Não é a construção de uma vagina que vai te fazer feliz.

Na braveza para discursar sobre as definições de gênero, Nany People só aceitou conversar com o iG sobre o que é ser integrante da população T – nome dados aos transexuais por médicos e militantes – para reforçar que o fim do preconceito com o público não virá via bisturi.

Em um País que já realiza duas cirurgias de adequação de sexo por dia em transexuais – segundo o número de operações gratuitas feitas no Sistema Único de Saúde (SUS), Nany diz que o acesso à educação é a única forma de tirar a população que vive à margem da saúde, do emprego e do diploma.

“Não é a construção de uma vagina que vai te fazer feliz. Estudar sempre foi o que me permitiu ser o que eu quisesse”, afirma.

Dominando a arte das caras e bocas, Nany também é afiada nas frases de efeito
Divulgação
Dominando a arte das caras e bocas, Nany também é afiada nas frases de efeito

Combinando Maquiavel e Shakira

Para ser a bonitona T, que não teme os 50 anos, Nany escolheu ser “Nany” pouco tempo depois de deixar Minas Gerais e fazer de São Paulo seu endereço fixo. Nesta entrevista, revisita sua trajetória citando Platão , Vinicius de Moraes , Maquiavel , Tina Turner e Shakira . Finaliza, então, com uma frase que atribui a Tom Jobim . “Sou artista. Ser artista é a forma de se transformar diariamente naquilo que você realmente é”, sentencia. 

A chegada em terras paulistanas nos anos 80 não foi fácil. Apesar do boom imobiliário daqueles tempos, Nany teve dificuldade para achar um apartamento. “Em 1984, a aids tinha espalhado medo e preconceito. Quem tinha qualquer relação com o público gay não conseguia emprego, moradia, mesmo sem estar infectado. Uma barra. Perdi uma porção de amigos porque a única forma da época de tratar o HIV era com novalgina.”

Apesar da onda preconceituosa, Nany decidiu não arredar os pés do solo paulistano. Não para sair do armário, ela ressalta. "Se fosse só para ter romances com homens, continuaria em Poços de Caldas (MG), onde fazia sucesso enorme com os amigos dos meus dois irmãos mais velhos”, provoca, emendando: “Não foi para sair do closet. Vim para São Paulo para estudar e ser atriz”.

Enquanto galgava os degraus da carreira, Nany foi se despedindo do nome de batismo, que ela não gosta nem de pronunciar. Deixou para trás também a divisão entre: roupas masculinas de dia e vestidos de lantejoulas à noite.

“Assumi o rótulo drag queen para fazer shows na noite paulistana. Mas duas coisas me fizeram mudar de rumo. A primeira é que perto dos 30, assimilei que não era um personagem noturno. O ‘ser mulher’, ainda que exagerado nas minhas apresentações, era euzinha, nua e crua. Não era fantasia.”

se vagina segurasse homem, minha filha, seu pai não tinha me largado’ disse mamãe com sua sabedoria.

“Depois, a própria noite deixou de ser atrativa para quem fazia arte. Com a explosão da música eletrônica e do ecstasy, as pessoas deixaram de apreciar um espetáculo. Atualmente, se tiver fama e sorte, só o DJ importa em uma casa noturna”, dispara.

Também perto dos 35 anos, já incorporada ao grupo dos transexuais, as vivências femininas cobraram fatura. “Dei uma enlouquecida. Achava que tinha de ser mãe, adotar, criar. Ufa, passou”, diz em referência à régua biológica que chega perto do 30º aniversário para boa parte das mulheres.

Nesta época, já com seios fartos, ausência de barba, voz adocicada, cabelos longos – resultantes dos hormônios femininos que tomava e toma diariamente – a vontade de fazer a cirurgia de mudança de sexo e ter um órgão reprodutor feminino bateu forte.

Veja também : Ricardo Linhares, autor da Globo, fala de beijo gay 

“Estava com a operação marcada. Mas a minha mãe me fez recuar: ‘se vagina segurasse homem, minha filha, seu pai não tinha me largado’ disse mamãe com sua sabedoria”.

Nany se diz feliz por não fazer parte das estatísticas de trans operados. “Tenho muitas amigas que fizeram e ficaram castradas, cheias de sequela, sem poder transar, com dores”, afirma a humorista, acrescentando que esse é um lado complicado da cirurgia de mudança de sexo não divulgado.

“A postura social, a felicidade, a oportunidade não vem com o que está embaixo da calcinha”, defende a humorista com ar sério. “Vem com a educação, com a leitura, com o acolhimento, com a autoestima, com o conhecimento”, completa.  

Nany teve honra de ser repórter da maior apresentadora da história da TV brasileira, Hebe Camargo
Divulgação/SBT
Nany teve honra de ser repórter da maior apresentadora da história da TV brasileira, Hebe Camargo

Coxia, sofá da Hebe e stand up 

A ascensão profissional que levou Nany a ser conhecida em todo Brasil foi menos tortuosa que sua busca por uma identidade. Como 21 anos e já em São Paulo, ela começou a vida no teatro pela coxia, atuando como camareira. Mas não demorou muito para ela sair dos bastidores e ir para o palco.

A carreira então deslanchou com passagens espetáculos na noite, reinados nos bailes gays e até uma passagem bem-sucedida como repórter do programa de Hebe Camargo, no SBT.

Em 2010, ela deixou o confinamento do reality show ‘A Fazenda’ (Record) e entrou de cabeça no o atual filão da comédia nacional, o stand up. Além de percorrer o Brasil fazendo graça, Nany é atualmente jurada do programa de talentos "Cante Se Puder", também no SBT.

Mas estes últimos acontecimentos não a afastaram do teatro tradicional. Desde fevereiro, Nany atua no monólogo "Meninas crescidas não choram”, em cartaz no teatro da Livraria Cultura do Shopping JK, na zona sul de São Paulo. Ela descreve o espetáculo como um drama que despe o gênero feminino “ao convidar as mulheres a pedirem alforria da culpa”.

Com autoridade plena sobre o significado de ser mulher, a atriz e humorista define os ingredientes do que é ser Nany People. “Metade estrogênio, uma pitada de testosterona e uma banana para o recalque”, finaliza, movimentando com precisão o seu ruidoso leque.

Leia mais no iGay:
Homossexualidade é assunto que não existe dentro das salas de aula
Escola é criticada por mostrar pessoas do mesmo sexo como símbolo de 'repulsão'

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.